Posts com Tag ‘deuses’

Penso que a força de um povo para continuar lutando contra a dominação, o preconceito e a discriminação étnica, está ligada a sua fé, por mais que ao outro ela pareça estranha. A fé é elemento que concede ao individuo, e a sociedade, forças subjetivas, para ter e alcançar objetivos. A fé no etéreo, no transcendente, possibilita, ao homem vencer as vicissitudes do mundo material. Quando os homens perdem a fé, é por que perderam a capacidade de trazer a sua memória, razões que lhes tragam esperanças. E estas razões, muitas das vezes estão na crença de que para além deles e seus duros cotidianos, existem um lugar e alguém maior. A este lugar, alguns povos chamam: “céu”, outros: “seio de Abraão”, outros: “terras sem males”. A este alguém maior, algumas etnias, chamam de Nhandejara, Modimo*, Olorum*, Alá, e outros ainda de Javé.

Pensando isso imaginei a seguinte situação: “Um dia todos os povos do mundo se reuniram para um desafio. Um cristão propôs que, todos os religiosos do mundo, que criam na existência de um deus, se juntassem em uma grande planície e invocassem ao mesmo tempo o nome de sua divindade. O desafio foi aceito, e no dia e hora marcada, em uma grande planície, todas as religiões monoteístas, se reuniram para o grande desafio. Ali estavam além do povo reunido, os sacerdotes de cada religião. O cristão que fez o desafio ditava as regras do jogo. E então gritou: – todos os sacerdotes venham para o centro. Ao que todos obedeceram. O Cristão falou-lhes: – Olhem para aquele grande relógio, daqui a cinco minutos, quando forem seis horas em exato, todos a uma só voz deverão gritar o nome de seu deus. A divindade que aparecer primeiro, será o único e verdadeiro deus. Para sabermos quem de nós estava crendo no deus verdadeiro, aquele que o reconhecer como sendo o deus que em seu coração imaginava, deverá correr para ele, e o abraçar. Todos sonoramente gritaram – amém!

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Uma noite tive um sonho. Sonhei que um homem negro de pele mui lustrosa, vestido com trajes típicos aos antigos negros africanos, aproximou-se de meu leito, e tocando em minha cabeça, disse – me: – Filho da África desperte, sim, despertai – vós, tu que fostes ha mais de cinco séculos, em meu lombo arrancado dos braços de sua terra natal, vem e segue-me. Segue-me e farei a você saber, aquilo que não pode ser esquecido, enquanto não houver justiça, para que não mais aconteça, e por fim, finde as injustas conseqüências que ainda permanecem. O homem negro levou-me, a um dos cantos[1] de uma encruzilhada, onde eu vi outro velho, porém esse era cafuzo[2] assentado na calçada. O velho aparentava ter números incontáveis de dias, parecia estar vivo ha muitas e muitas centenas de séculos. Com uma cuia de esmola na mão, ele parecia contar historias, e algumas pessoas paravam para ouvi-lo. Aproximei-me, e ao chegar mais perto, ele estendeu a cuia, na qual coloquei uma moeda. Ele agradeceu as moedas, e em voz alta proclamou: -“O Anti- Evangelho segundo o Colonizador, página 22, Capitulo 04 Versículo 1500. Ao que o povo composto de afro-descendentes e ameríndios, a uma voz responderam: – recontai nossa história oh cafuzo avô! O velho cafuzo mergulhando em suas lembranças passou a contar uma história começando exatamente assim: – “Naquele tempo, indo com suas Naus, como eram acostumados, avistaram um Novo Mundo, gritou-se terra a vista, segundo o seu costume, e atracaram-se na praia a fim de conhecê-la. Então, desce um homem com o corpo coberto por toda parte, aparece somente seu rosto. Ele é branco como se fosse de cal. Tem o cabelo amarelo, embora outros atrás dele tenham cabelos pretos. Longa é a sua barba, também amarela; o bigode também é amarelo. São de cabelos crespos e finos, um pouco encaracolados[3]. Pegando em suas armas que cospem fogo e estrondam como o trovão, e, apontando-as para cima, um deles que parecia ser o chefe declarou o que abaixo segue escrito:

“O espírito da Dominação está sobre mim, pelo que me ungiu para desesperançar os pobres; enviou-me para proclamar cativeiro aos livres e perfuração da vista aos que enxergam, para pôr sob opressão os que jazem em liberdade, cortar e por cadeias no pulso dos chefes, negociar vossos corpos como peças, por em grilhões vossos pés e mãos, atar-vos e supliciar vossos corpos em castigo, pilhar vosso ouro, abrir a espada o ventre de vossas esposas e forçar vossas virgens, reduzir-vos a escravidão, e impor sob vós o julgo impiedoso do Colonizador”.

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