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Uma noite tive um sonho. Sonhei que um homem negro de pele mui lustrosa, vestido com trajes típicos aos antigos negros africanos, aproximou-se de meu leito, e tocando em minha cabeça, disse – me: – Filho da África desperte, sim, despertai – vós, tu que fostes ha mais de cinco séculos, em meu lombo arrancado dos braços de sua terra natal, vem e segue-me. Segue-me e farei a você saber, aquilo que não pode ser esquecido, enquanto não houver justiça, para que não mais aconteça, e por fim, finde as injustas conseqüências que ainda permanecem. O homem negro levou-me, a um dos cantos[1] de uma encruzilhada, onde eu vi outro velho, porém esse era cafuzo[2] assentado na calçada. O velho aparentava ter números incontáveis de dias, parecia estar vivo ha muitas e muitas centenas de séculos. Com uma cuia de esmola na mão, ele parecia contar historias, e algumas pessoas paravam para ouvi-lo. Aproximei-me, e ao chegar mais perto, ele estendeu a cuia, na qual coloquei uma moeda. Ele agradeceu as moedas, e em voz alta proclamou: -“O Anti- Evangelho segundo o Colonizador, página 22, Capitulo 04 Versículo 1500. Ao que o povo composto de afro-descendentes e ameríndios, a uma voz responderam: – recontai nossa história oh cafuzo avô! O velho cafuzo mergulhando em suas lembranças passou a contar uma história começando exatamente assim: – “Naquele tempo, indo com suas Naus, como eram acostumados, avistaram um Novo Mundo, gritou-se terra a vista, segundo o seu costume, e atracaram-se na praia a fim de conhecê-la. Então, desce um homem com o corpo coberto por toda parte, aparece somente seu rosto. Ele é branco como se fosse de cal. Tem o cabelo amarelo, embora outros atrás dele tenham cabelos pretos. Longa é a sua barba, também amarela; o bigode também é amarelo. São de cabelos crespos e finos, um pouco encaracolados[3]. Pegando em suas armas que cospem fogo e estrondam como o trovão, e, apontando-as para cima, um deles que parecia ser o chefe declarou o que abaixo segue escrito:

“O espírito da Dominação está sobre mim, pelo que me ungiu para desesperançar os pobres; enviou-me para proclamar cativeiro aos livres e perfuração da vista aos que enxergam, para pôr sob opressão os que jazem em liberdade, cortar e por cadeias no pulso dos chefes, negociar vossos corpos como peças, por em grilhões vossos pés e mãos, atar-vos e supliciar vossos corpos em castigo, pilhar vosso ouro, abrir a espada o ventre de vossas esposas e forçar vossas virgens, reduzir-vos a escravidão, e impor sob vós o julgo impiedoso do Colonizador”.

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