Eternos aprendizes, sim, eternas crianças na fé, não. Somos  vocacionados a crescer

Publicado: 21/04/2018 em Artigos, Teologia, Uncategorized
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“Eternos aprendizes, sim, eternas crianças na fé, não. Somos  vocacionados a crescer. “

Antes, crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. A Ele seja a glória, agora e no Dia eterno! Amém. – 2 Pedro 3:18

Resiliência-EmocionalÉ comum na criação, que as coisas nasçam pequenas, todavia, é anômalo que continuem pequenas. Deus criou todas as coisas para o crescimento, se observarmos a natureza, com o olhar contemplativo e investigativo, vamos concluir que tudo o que foi criado por Deus é chamado a crescer, isso de forma natural. Ser pequeno é uma fase crucial na vida de praticamente todos os seres, contudo, o crescer faz parte da existência plena que Deus planejou para tudo o que criou.

Até os maiores rios do mundo nasceram pequenos, mas foram crescendo, se agigantando, até que se tornaram imensos e por fim se fundem a lagos ou aos lençóis freáticos. Com poucas exceções, o destino da grande maioria dos rios é se fundir com o mar ou tornar-se um com o oceano. Segundo estudiosos, o Rio Okavango é o único do planeta que foge à tal regra. Okavango, deságua no Deserto da Namíbia. “Conhecido como o rio que nunca encontra o mar, o Okavango desaparece no deserto de Kalahari em 15.000 quilômetros quadrados numa confusão de lagos, canais e ilhas a noroeste de Botsuana.”¹

Como parte da criação atual e da nova criação em Cristo, nós seres humanos também somos programados para crescer, isso tanto biológica como intelectual e espiritualmente falando. Todo nosso ser, corpo, alma e espirito, é chamado a crescer.

Focando o crescimento espiritual, nascemos novamente da água e do espírito, todavia, nascemos bebês, meninos na fé, e conforme vamos sendo nutridos pela Palavra de Deus vamos renovando a nossa mente e mudando nossa forma de pensar e consequentemente o nosso comportamento no mundo. A Palavra nos orienta: “Despojando-vos, portanto, de toda maldade e dolo, de hipocrisias e invejas e de toda sorte de maledicências, desejai ardentemente, como crianças recém-nascidas, o genuíno leite espiritual, para que, por ele, vos seja dado crescimento para salvação, se é que já tendes a experiência de que o Senhor é bondoso” (1 Pedro 2.1-3).

Essa nova forma de pensar, fruto do crescimento espiritual com reflexo no material, faz com que experimentemos qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus. E, tal renovação da mente faz com que vivamos como nova criação em meio a velha criação, a velha ordem das coisas que ainda permanece, e que deve ser influenciada por nossa forma de ser, ver e viver no mundo. A renovação da nossa mente individual e coletivamente implicará em intervenção positiva na criação, não somente no porvir,  escatológico, mas já no aqui e agora de nossas vidas. Penso também ser esse o sentido do que Paulo diz em Romanos 8: 18 a 23.

Quando Jesus diz em Mateus 18:3, que devemos nos tornar como crianças ele não está incentivando a infantilidade na fé, mas sim a pureza no exercício dela e no relacionamento com ele e com o próximo. Em Cristo, nós somos chamados a crescer sempre mais e mais, no Reino somos eternos aprendizes, sim, todavia, eternas crianças na fé, não. O nosso alvo é, por meio do conhecimento, atingirmos à medida da “estatura completa de Cristo,…”, conforme Efésios 4:13. Aos imaturos cristãos de Corinto Paulo advertiu: “Irmãos, não sejais meninos no entendimento, mas sede meninos na malícia, e adultos no entendimento.” I Cor 14: 20. – Focando essa maturidade espiritual como meta, o próprio Paulo reconhecendo o processo gradativo de obtenção do conhecimento, mesmo sabendo que o pleno saber só se dará quando vir a plenitude das coisas, aplicou a si a verdade da fase de crescimento físico e espiritual. Em seu hino sobre o amor, em 1 Cor 13: 11, ele confessa: “Quando eu era menino, pensava como menino; mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino.”

Tal crescimento é um processo necessário na vida de cada pessoa cristã. Uma vez iniciado e alimentado, o processo, como diz o Sábio, em Provérbios 4:18, é “como a vereda dos justos e como a luz da aurora que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito.” No sentido de conhecimento tal crescimento em conhecimento e graça ocorre como escreveu Agostinho, o Bispo de Hipona:

“Intelligebas heri modicum, intelligis

hodie amplius, intelligis cras multo

amplius; lúmen ipsum Dei crescit in te”.
“Ontem entendias um pouco, hoje

entendes algo mais, amanhã

entenderás muito mais. É a própria luz

de Deus que cresce em ti.”

A supracitada crescente luz de Deus em nós, citada pelo Bispo de Hipona, não é outra senão aquela sobre a qual João falando sobre o Verbo encarnado, declarou: “A Palavra é a luz verdadeira que, vinda ao mundo, ilumina a toda a humanidade.” (João 1:9) Essa Luz é aquela Palavra Viva, Pessoa Divina, a respeito da qual, no prologo de seu Evangelho João asseverou:  (João 1:1). O mesmo João, o apostolo da luz, no capítulo 1 de sua 1ª epístola, de 5 a 7,  revela: “E esta é a mensagem que dele ouvimos, e vos anunciamos: que Deus é luz, e não há nele trevas nenhumas. Se dissermos que temos comunhão com ele, e andarmos em trevas, mentimos, e não praticamos a verdade. Mas, se andarmos na luz, como ele na luz está, temos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo o pecado.” No supracitado fica claro que o andar na Luz faz com que cresçamos em graça, conhecimento e comunhão com Deus e uns com os outros.

A fé, consequência da graça, conforme Efésios 2:8, é só o início de nosso processo de crescimento. Pedro nos alerta que somos chamados a não ficarmos estacionados na fé. Ele deseja e diz que a graça e paz são multiplicadas pelo conhecimento de Deus, e de Jesus nosso Senhor. Ele chega a dizer que somos chamados a ser participantes da “natureza divina”. Aqui vejo que somos “rios” e que Deus é nosso fim último, como um “oceano eterno”. Pedro discorre:

“…Visto como o seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida e piedade, pelo conhecimento daquele que nos chamou pela sua glória e virtude; Pelas quais ele nos tem dado grandíssimas e preciosas promessas, para que por elas fiqueis participantes da natureza divina, havendo escapado da corrupção, que pela concupiscência há no mundo. E vós também, pondo nisto mesmo toda a diligência, acrescentai à vossa fé a virtude, e à virtude a ciência, E à ciência a temperança, e à temperança a paciência, e à paciência a piedade, E à piedade o amor fraternal, e ao amor fraternal a caridade. Porque, se em vós houver e abundarem estas coisas, não vos deixarão ociosos nem estéreis no conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo. – 2 Pedro 1:2-8.

O nosso crescimento em conhecimento e graça não tem como fim a nossa deificação, isso é heresia. Obviamente que ser participante da natureza divina não é o mesmo que ocorreu com o Verbo que ao se fazer carne se tornou participante da natureza humana, e isso de forma indissolúvel. Não vamos nos tornar deuses, pois só há e sempre haverá somente um único Deus manifesto em três distintas pessoas. Mas, ser participante da natureza divina significa que a encarnação e obra redentora de Cristo Jesus, possibilita que hoje exista algo de humano assentado a destra de Deus e que haja algo de divino entronizado em nossos corações, pois como afirmou Jesus em João 14:23:, “…Se alguém me amar, guardará a minha palavra; e meu Pai o amará, e viremos a ele, e faremos nele morada.”. Ele confirma essa presença divina em nós, ao falar da Terceira Pessoa da Trindade: “O Espírito de verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece; mas vós o conheceis, porque habita convosco, e estará em vós.” João 14:17. Paulo em 1 Corintios 3:16, falando em um sentido comunitário confirma o que Cristo anteriormente falou: “Não sabeis vós que sois santuário de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós?”

E a guisa de conclusão, o crescimento, a maturidade na fé a ser cotidianamente buscada não deve ter fins estritamente pessoais. Nós, em Cristo, crescemos para os outros. É Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade.” (Filipenses 2.12-13). Motivado por Deus e para Deus, a experiência do crescimento ainda que seja individual não é individualista, pois os propósitos de Deus sempre são comunitários. A manifestação do Espirito, ainda que não anule a individualidade, faz com que o “eu” se funda com o “outro” e gere o “nós”. A nova consciência gerada pelo Evangelho faz com que o “meu” acrescente ao “seu” e estabeleça o “nosso”. Em Mt 6:8-9 e Lucas 11:2-4, isso está claro na oração ensinada por Jesus, onde tanto o Pai, como o pão, o perdão das ofensas, o guardar do mal e o Reino possuem caracteres coletivos.

Que haja em nós o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus, Filipenses 2:5, que o Senhor nos ajude a crescer para baixo em humildade e para o alto em conhecimento e para os lados em serviço. Que em Cristo, como escreveu Agostinho, cada um de nós busque para a Glória do Pai e serviço ao próximo, ser humilde para evitar o orgulho, mas voar alto para alcançar a sabedoria.

José do Carmo da Silva – pelo Caminho, um eterno aprendiz do Eterno.

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¹ PAVARINI, Márcia. Delta do Okavango -O Rio que Morre para dar Vida ao Deserto. Disponível em: http://www.diario1001viagens.com/delta-do-okavango—o-rio-que-morre-para-dar-vida-ao-deserto.html

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