Falando por mim mesmo sobre: Metodismo e casamento gay, lá fora e no Brasil

Publicado: 20/06/2016 em Uncategorized

talbert-wedding-couple

Por Reverendo José do Carmo da Silva

“Pois ao SENHOR pertence o reino: Deus governa as nações!” – Salmos 22:28

“Não me preocupo com o que pode acontecer daqui a cem anos. Aquele que governava o mundo antes de eu nascer cuidará disso igualmente, quando eu estiver morto. A minha parte é melhorar o momento presente.” John Wesley.

A Palavra de Deus nos traz diversas orientações para a construção de um mundo melhor. Dentre elas as que mais gosto é: “Se for possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens”. – citada por Paulo na carta aos Romanos 12:18, e também esta orientação dada pelo anônimo escritor da carta aos Hebreus capítulo 12.14a: “Segui a paz com todos.” Entendo que a paz é algo que se constrói com enfrentamento, e enfrentamento gera sempre conflitos e até mesmo guerras e divisões. Afirmar que o alcance da paz passa por enfrentamento, conflitos, confrontos, guerras e divisões, pode até parecer paradoxal, mas, a meu ver, não é, pois pensamentos acirradamente opostos não ficam em silêncio por muito tempo, ainda que a parte descontente o abafe, ele está lá, ainda que acima da superfície tudo pareça calmo, abaixo dela há um vulcão prestes a explodir. Penso que  o descontentamento e o desacordo velado, abafado, são como barris de pólvora alojados no armário, os quais inevitavelmente, mais cedo ou mais tarde explodirão. Sobre divergências e caminhada comum, a Palavra de Deus no capitulo três versículo três, através do Profeta Amós, questiona:

Porventura andarão dois juntos, se não estiverem de acordo?

Respondo que não. Penso que não é possível, ao menos por muito tempo, uma vez que não havendo o mesmo pensar em torno de questões cruciais da vida conjugal, da fé, da Igreja, da politica,  é impossível existir paz verdadeira, mas sim o calar-se sob o contínuo e opressor silenciar aplicado pelo mais forte. A paz verdadeira jamais será fruto da auto-anulação. É preciso coragem, honestidade e bom caráter até mesmo para discordar, mesmo que seja da maioria, pois a verdade não depende de números.

Feita a introdução quero abordar um tema que tem sido divisor de opiniões dentro das Igrejas Cristãs, a questão da homossexualidade. Uma pesquisa sobre a história da Igreja vai revelar que sempre existiram homossexuais no seio dela, obviamente que nem todos declarados. Talvez o mais conhecido deles seja Henri Jozef Machiel Nouwen ( 19321996), um católico holandês, teólogo, padre e escritor.  Henri escreveu 40 livros sobre espiritualidade cristã, os quais são considerados grandes clássicos, tanto por católicos como por protestantes. Sobre ele, Osmar Ludovico da Silva, que dedica-se a direção de grupos de formação espiritual, escreveu:

“Henri Nouwen (1932-1996) é um dos mais profundos autores cristãos de nossa época. Ninguém como ele soube fazer pontes entre a espiritualidade e mística clássica com mundo contemporâneo, entre a vida de silêncio e oração e a prática de boas obras, entre a erudição e a piedade. Ao aceitar compartilhar suas experiências espirituais com o mundo, através de seus livros, Henri Nouwen, abriu-nos um novo horizonte para a uma vivência genuinamente cristã num mundo conturbado e caótico. E nos ajudou a integrar fé e vida, a percorrer no caminho que conduz à sublime presença de Deus, e assim permanecermos na fé, na esperança e no amor. Em meio ao conflito de nossos corações pela busca da ascensão, da relevância e do sucesso a ser demonstrado, ele aponta um caminho inverso, o caminho da cruz, o caminho da simplicidade, o caminho da solitude, o caminho da compaixão; em outras palavras o caminho que Jesus de Nazaré trilhou.”

Certamente que a existência de pessoas homossexuais dentro do cristianismo não é o centro da discussão, pois o exemplo de Henri Nouwen deixa isso claramente em evidência, todavia, na atualidade questões ligadas à aceitação da plena vivência dos desejos homossexuais de tais pessoas é que têm sido debatidas por Igrejas Protestantes Históricas já há algumas décadas, e também mais recente, de forma mais profunda, no catolicismo romano, após acensão do Cardeal Jorge Mario Bergoglio ao Papado. Penso que, se a Igreja Cristã não fosse fragmentada como é na atualidade, se ainda vivêssemos como nos primeiros séculos certamente a questão homoafetiva seria causa para a convocação de um Concílio Universal, onde se debateria tal questão tão antiga quanto a humanidade, mas em nosso tempo, tão polêmica quanto antiga. Tal conclave universal teria que responder perguntas sobre homossexualidade, tais como:

É a prática do ato sexual entre pessoas do mesmo sexo realmente contrária as Escrituras Sagradas? Pode a Igreja aceitar como normal e dar a benção matrimonial sobre pessoas do mesmo sexo? Pessoas homossexuais passivas e ativas podem exercer o ministério pastoral ordenado? Seria violar a consciência humana o aceitar a homossexualidade de uma pessoa cristã, todavia, aceitá-la na Igreja somente como celibatária? A Igreja deve se abrir revendo sua teologia clássica e interpretações bíblicas mudando sua postura com base nas novas interpretações e descobertas sobre a sexualidade humana?

Como o cristianismo é fragmentado muitas denominações separadamente em seus sínodos, conferências, concílios têm internamente debatido tais questões. E como fruto de tal debate algumas Igrejas Protestantes Históricas na Europa e nos EUA adotam posições inclusivas a pessoas LGBTs. Cito como exemplos ramos do Anglicanismo, e a Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos (PCUSA) a qual após trinta anos de debates passou não somente a celebrar matrimônios homoafetivos como também se abriu a ordenação de GLBTs. Essa discussão vai além do ramo protestante, a semelhança das supracitadas denominações, a Igreja Católica, segundo o padre Jesuíta e Historiador e Professor da PUC Rio Luís Corrêa Lima, na Holanda também realiza tais cerimônias. Em Programa exibido na TV Justiça, respondendo a pergunta: “…a questão do casamento, a gente ainda pode ver, em termos religiosos, isso ainda está muito distante aqui no Brasil?” – Luiz Corrêa Lima responde:

“No Brasil sim, mas na Holanda, por exemplo, é comum, sacerdotes, 80% dos sacerdotes católicos abençoam uniões homoafetivas. Essa foi uma pesquisa feita pela Universidade de Utrecht, e 50% dos sacerdotes católicos realizam essas bênçãos no templo católico, mas isso porque a sociedade já se habituou e ninguém rasga as vestes por causa disso, mas no Brasil ainda estamos longe disso…”, (Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=2dtYYRV4_wU)

Voltando a falar de Metodismo, nos EUA sobre a questão homoafetiva o “Livro de Disciplinas” de 2012, da Igreja Metodista Unida, declara:

¶ 4. Artigo IV. Inclusão da Igreja: A Igreja Metodista Unida reconhece que todas as pessoas são de valor sagrado. Todas as pessoas, sem distinção de raça, cor, nacionalidade, status ou condição econômica, são elegíveis para participar de suas reuniões de culto, participar de seus programas, receberem os sacramentos, e mediante o batismo ser admitidos como membros batizados, e ao assumir os votos declarando a fé cristã, tornam-se membros professos em qualquer igreja local da conexão.

¶ 304.3: A prática da homossexualidade é incompatível com a doutrina cristã. Portanto, homossexuais auto-declarados e praticantes não devem ser certificados como candidatos, ou ordenados como ministros, ou designados para servir na Igreja Metodista Unida.

¶ 341.6: Cerimônias em que se celebram uniões homossexuais não devem ser realizadas por nossos pastores e não devem ser realizadas em nossas igrejas.

Todavia,  assim como outras grandes Igrejas Protestantes nos EUA, a Igreja Metodista Unida enfrenta internamente forte pressão da ala liberal para mudar os artigos supracitados. Em 2015, falando sobre o tema, o bispo Bruce R. Ough afirmou que a denominação estava tendo um “debate muito sério, respeitoso e sincero, com o fervente desejo de discernir a vontade de Deus”. Esse ano, 2016, a discussão foi retomada, e o que se sabe e que a revelia da decisão da Conferência Geral, a qual adiou a decisão para daqui dois anos, Conferências Regionais da Metodista Unida estão, a exemplo, da Igreja Anglicana, ou ramos dela, e da Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos (PCUSA) adotando as mesmas posições, aceitando o casamento homoafetivos e consequentemente permitindo a ordenação de pessoas assumidamente gays.

Nesse ano de 2016, a revelia do decidido em Conferência Geral, decisões pró casamento gays foram tomadas por algumas Conferências Metodistas nos EUA. Tais decisões, por hora não possuem caráter normativo geral, e por assim ser, são passíveis de contestações. Não será necessário, todavia, que se chegue a um consenso geral, o que é impossível, pois tais decisões das conferências, em oposição a proposta da Geral mostram que a Igreja Metodista Unida está dividida, e que inevitavelmente em breve haverá um cisma total no seio dela, uma das maiores denominações protestantes daquela nação. Lembrando que, no Brasil, embora tenhamos laços fraternos e colaborativos com a Metodista Unida, tal decisão  não se aplica ao Metodismo Brasileiro. Aqui somos uma Igreja Independente, nossos Cânones diz o seguinte:

Art. 61 É vetado ao/a Pastor/a: VII – celebrar a bênção do matrimônio entre pessoas do mesmo sexo, por ser incompatível com as doutrinas e práticas da Igreja Metodista. § Art. 13 – §3º – Nenhum ministro ou pastor metodista pode celebrar a bênção do matrimônio entre pessoas do mesmo sexo, por ser incompatível com as doutrinas e práticas da Igreja Metodista. (Cânones da Igreja Metodista 2012/2016 p.71-72) 

Ainda sobre o tema  veja no final do artigo links sobre a posição da IMB.

Falando por mim mesmo

Acompanho essa discussão há algumas décadas, e penso que é um caminho sem volta. Creio que de ora e em diante haverá dois ramos cristãos, um pró e outro contra a aceitação incondicional da homossexualidade. Em em um terceiro momento, ou paralelo aos supracitados, uma terceira via, mista. Falando por mim mesmo, não em nome da Igreja Metodista no Brasil, pois não fui eleito para isso, sigo orando pelo Povo chamado Metodista em terras norte-americanas e europeias, todavia, com base naquilo que interpreto das Escrituras, nem tanto o Antigo Testamento, mas nas cartas Paulinas, e demais epístolas que abordam o tema, ainda penso e creio de forma conservadora. Embora, defendo que a pessoa homossexual deve ser respeitada em todos os seus direitos civis, e admito que seja fato a existência de grupos homofóbicos, tanto dentro como fora da Igreja Cristã, assim como é verdadeira a existência de homossexuais tanto no clero como no laicato brasileiro, não abraço a teologia gay, e penso que os liberais que a abraçam relativizam as Escrituras e forçam textos bíblicos, alguns deles chegando a afirmar que Davi e Jônatas, Rute e Noemi, bem como Jesus de Nazaré e João, o discípulo amado, eram todos homossexuais.

Embora tenha amigos e amigas nesse meio, no tocante a questões teológicas não apoio a agenda liberal que com interpretações próprias das Escrituras defendem a plena aceitação dos LGBTs, contudo, divergindo de muitos de meus pares protestantes eu vejo com bons olhos a existência de comunidades inclusivas, penso que elas nascem como frutos da liberdade concedida por Deus, pois nelas encontram a paz, pessoas que possuem pensamentos diferentes da antiga interpretação sobre os textos das Escrituras que condenam a prática do ato sexual entre pessoas do mesmo sexo. Por outro lado, também não vejo homossexualidade como doença ou como fruto de possessão espiritual, também não abraço outras explicações que rasa e apressadamente são dadas, mesmo assim não vejo a prática do ato sexual entre pessoas do mesmo sexo como compatível com o ensino bíblico tradicional, o qual abraço. Dubiedade e segregação? Não! Não vejo dessa forma, antes vejo como coerência. Sei que posso e serei chamado de homofóbico e que muitos amigos e amigas se afastarão de minha pessoa por deixar clara a minha posição sobre o tema, mas como não busco apoio, antes promovo a reflexão, estou tranquilo em me posicionar. Estou convicto que tal posição não me impede de amar, respeitar e até mesmo pastorear homoafetivos, mas penso que no campo da doutrina bíblica, no tocante a plena aceitação da homossexualidade, até aqui não há acordo, e nesse sentido, nos respeitando mutuamente dentro das diferentes compreensões bíblicas sobre tema tão angustiante, penso que somos chamados a seguir em paz, ainda que por caminhos separados.

Nessa jornada seguindo cada um a sua compreensão e consciência no Evangelho, clamo ao Senhor da História para que tenha misericórdia de todos nós e em sua graça nos conduza a bom termo, “pois ao SENHOR pertence o reino: Deus governa as nações!” – Salmos 22:28. E quanto ao amanhã, em torno dessa e outras questões conflituosas frente às quais precisamos nos posicionar hoje, faço minhas uma fala atribuída a John Wesley:

“não me preocupo com o que pode acontecer daqui a cem anos. Aquele que governava o mundo antes de eu nascer cuidará disso igualmente, quando eu estiver morto. A minha parte é melhorar o momento presente.”

Falando por mim mesmo sobre: Metodismo e casamento gay, lá fora (e futuramente) no Brasil; concluo dizendo, em nome da paz, que venha a divisão!!.

Rev. José do Carmo da Silva

_____________________________

 

Sobre Henri Nouwen

Oficio Divino: seus elementos centrais e espiritualidade -http://scsma.blogspot.com.br/2009/08/oficio-divino-seus-elementos-centrais-e.html

Fomentar a espiritualidade da solidão, da comunidade e compaixão – A vida e os ensinamentos de Henri Nouwen

Nouwen lutou contra sua sexualidade.[3] “Muito embora esta tenha sido conhecida por aqueles que éram próximos a ele, ele jamais deixou publico sua identidade homossexual.”[4] Apesar de Nouwen, nunca ter tratado do tema de sua sexualidade em seus escritos publicados durante a sua vida, ele reconheceu seus dilemas nessa área, em discussões com amigos[5] isso foi abordado na biografia escrita por Michael Ford, jornalista da BBC, chamada O Profeta Ferido que fora publicada após a morte de Nouwen. Ford sugere que Nouwen se tornou completamente pacificado com sua tendencia sexual nos últimos anos de sua vida, e que por um outro lado, sua depressão foi causada em partes por esse conflito entre seu voto de celibato e o sentimento de solidão e necessidade de intimidade que ele vivenciara. Ford conjecturou, “Isso se tornou um enorme jogo emocional, espiritual e fisico em sua vida, e pode ter contribuido para a antecipação da sua morte. “[3] Não existem evidências que Nouwen em algum momento quebrou seus votos de celibato.[3]

Sobre a questão debatida pela Metodista Unida, leia mais sobre o assunto nos links abaixo:

Igreja Metodista perto de um novo cisma por causa de Casamento Gay

PRONUNCIAMENTO DO COLÉGIO EPISCOPAL SOBRE O PROJETO DE LEI ACERCA DA HOMOFOBIA.

 

 

 

 

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s