E Deus com isso? Sobre o conflito entre índios e fazendeiros em Mato Grosso do Sul.

Publicado: 17/06/2016 em Uncategorized

indio.mortoSou

Sou assim como muitos brasileiros, uma mistura de negro e indígena, em 2009, para uma monografia do bacharelado em Teologia, segundo uma entrevista que fiz com minha avó, Dona Aurora Maria, uma cafuza (mistura de negros com índios), na nossa ancestralidade também há brancos, fiquei surpreso, mas a vida seguiu com todas as dificuldades, lutas e superações comuns na vida de um brasileiro de tez escura.

Nasci e cresci aqui em Mato Grosso do Sul, em Dourados, segunda maior cidade do Estado e minha terra natal. Quando era criança morrei na Vila Índio, a rua onde residia dava acesso a aldeia dos Kaiwá o que tornava comum famílias indígenas passarem em frente a nossa chácara, ás vezes buscavam abrigo da chuva na área de casa. Não éramos tão próximos, mas sempre convivemos bem. Cresci ouvindo falar de conflitos entre índios e fazendeiros, contudo a impressão que tenho é que naquela época, década de oitenta, não eram tantos quanto vemos na atualidade, talvez seja pelo fato de que hoje aumentou as informações ou aumentou meu interesse pelo assunto.

Diante do que a mídia mostra, muitos perguntam a causa, e logo surgem muitas respostas, às vezes formuladas rapidamente, e por assim ser, são até simplórias. Não sou versado no assunto, mas pelo pouco que sei, penso que no tocante aos contínuos e crescentes conflitos, há muito tempo os produtores rurais e indígenas são vitimas do governo federal e estadual. O federal criou o impasse quando titulou terras indígenas, e se torna culpado também por não ter dado sequência as demarcações segundo os termos da Constituição Federal de 1988.

Ambos os governos quase que impassivelmente permanecem em suas burocracias gerando tensão e insegurança para quem tem o título da terra, e fomenta o conflito com os que a reivindica como espaço de sua ancestralidade, os índios.

Enquanto os poderes “dormem” em berço esplendido, quem reivindica, bem como quem está sobre a terra, não consegue viver em paz, pois de conflito em conflito, inseguros, os “brancos” após a dura lida no campo tombam cansados sobre seus travesseiros, mas insones rolam na cama sem saber como será o amanhã. Do outro lado, cansados de esperar pelo governo os indígenas invadem propriedades rurais, e ao impacto do chumbo quente, sangue e corpos rolam e tombam por sobre o objeto de litigio, a terra.

Invasão faz parte de nossa nação, está no seu DNA, se formos olhar historica e sinceramente mente veremos que não só Mato Grosso do Sul é terra indígena, mas todo esse Brasil em cujo símbolo nacional maior, centralizado, está escrito: Ordem e Progresso, a eles pertencem, pois essa terra foi invadida e não descoberta.

Ordem e Progresso, tal expressão, lema nacional, foi idealizada por Raimundo Teixeira Mendes, “de origem no positivismo sendo de forma abreviada o lema de autoria do positivista francês Auguste Comte: “O Amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim”. O positivismo possui ideais republicanos, como a busca de condições sociais básicas, através do respeito aos seres humanos, salários dignos etc., e também o melhoramento do país em termos materiais, intelectuais e, principalmente, morais.” De fato o belo e esperançoso lema nacional evoca e invoca coisas positivas, justas e necessárias para a vida brasileira, todavia, não haverá Ordem nem Progresso, no presente e tampouco no futuro, enquanto o Brasil não colocar em ordem o seu passado. Sim, em tempos de crises é preciso revisitar o ontem para construir um amanhã melhor, nossa nação precisa acertar contas com seu passado se acaso desejar viver em ordem e assim atingir o progresso de se ler, mas sem acerto com o passado se torna impossível de se viver, uma vez que ignorar a crise não traz solução para ela, pois não existem soluções onde não se reflete sobre os problemas.

A crise entre indígenas e produtores rurais ainda que não falemos nela, não calará, pelo contrário, a tendência é clamar mais alto, seja pelo som de armas de fogo que ecoa mais alto do que o zunido de flechas a cortar o ar, seja pelo som de corpos tombados ao som de armas de grosso calibre, seja pelo crepitar das chamas das casas de produtores rurais, seja pelos sons das cantorias, rezas, danças e instrumentos dos indígenas, seja pelas orações de proprietários de terras, seja por meio da ação de aproveitadores inescrupulosos que assim como na questão da Reforma Agrária usam da legitimidade da causa para se locupletarem, seja pela voz da mídia internacional que muito mais que a nacional dá evidência ao que ocorre no estado do Pantanal, que de tempos em tempos, em locais de conflitos, se alaga com sangue, que assim como o de Abel clama aos céus por justiça (Gênesis 4:10).

E Deus com isso?

Perguntaram-me onde fica Deus nessa história. Indagaram-me: Pastor, de que lado Deus está? Dos produtores rurais ou dos indígenas? Respondi que ele está do lado de quem necessita e de quem exerce a justiça e o direito, bases de seu trono. Insistiram em perguntar se Deus não iria agir. Eu novamente respondi e conclui:

Não pretendo delimitar o espaço de atuação divina, longe de mim o querer colocar o Senhor em uma reserva, contudo penso que Deus já fez a parte dele, a questão agora é coisa de seres humanos, de pessoas a quem cabe o analisar e julgar a questão. E que não adianta clamar a ele por uma miraculosa intervenção divina que traga solução a esse impasse. Em quanto cristão eu creio que orações e pregações ajudam, mas sozinhas não resolverão o conflito, pois nessa questão a resposta definitiva vem através do diálogo seguido de boa vontade, ações políticas e jurídicas. Nesse impasse, Deus espera e cobrará atitude de quem se julga civilizado, e concentra em suas mãos o poder de decisão. A eles sua Palavra adverte:

Ai daqueles que promulgam leis iníquas, e todos que elaboram decretos opressores, a fim de privar os pobres dos seus direitos e evitar que os oprimidos do meu povo tenham pleno acesso à justiça, transformando as viúvas em presas de suas ambições e despojando os órfãos! – Odeiem o mal, amem o bem; estabeleçam a justiça nos tribunais. Em vez disso, corra a retidão como um rio, a justiça como um ribeiro perene! ” – Isaías 10: 1 e 2 e Amós 5: 15 e 24″

Que o Senhor nos ajude a agir com equidade e retidão.

Rev. José do Carmo da Silva – Brasileiro neto de negros e indígenas, e segundo minha avó Aurora, também de brancos.

 

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