A propósito de mentoria e cobertura espiritual

Publicado: 31/05/2016 em Uncategorized

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Perguntaram-me o que eu acho de mentoria e cobertura espiritual. Abaixo segue minha resposta.

Inicio dizendo que: 

Sempre tive alguns mentores, ultimamente estou sendo mentorado de uma forma mais “sistemática”, graças a Deus tenho me sentido muito bem. Não coloco como regra, e penso que até seja possível caminhar sozinho, mas com qualidade de aprendizado, conhecimento, apoio, escuta e aconselhamentos vindos de um mentor equilibrado a caminhada se torna mais fácil. Como escreveu Clarice Lispector “Quem caminha sozinho pode até chegar mais rápido, mas aquele que vai acompanhado, com certeza vai mais longe.” Por afinidade, por observar, julgar necessário, ver base bíblica e histórica no processo, eu escolhi o meu mentor. Fiquei surpreso e feliz, quando outras pessoas, inclusive fora da Igreja Metodista, me escolheram como mentor, hoje sou um mentorado que mentoreia. Como aconteceu comigo, penso que o processo de escolha deve ocorrer naturalmente.

Liderança servidora e mentoria são aceitáveis, encontramos base para essas duas ações nas Escrituras e tradição da Igreja. Qualquer pessoa madura na caminhada cristã pode exercê-las com outras iniciantes na fé, em algo novo no seio da Igreja e que requer orientação, ou ainda, com pessoas em momentos de crises. O mentor espiritual orienta, capacita, questiona, ajuda a pensar, todavia, sem cometer abuso espiritual, sem tomar decisões pelo orientando, ou coagindo-o a fazer o que não deseja. O mentor tem em mente que está apontando para Cristo e não para si mesmo… Ele pode seguramente dizer como Paulo: “Sede meus imitadores, como também eu o sou de Cristo.” – 1 Coríntios 11:1 – “Tudo o que aprendestes, recebestes, ouvistes e vistes em mim, isso praticai; e o Deus de paz estará convosco”. – Filipenses 4:9… O mesmo Paulo que fez as supracitadas citações declarou em Efésios 2: 1 a 5: “Portanto, sede imitadores de Deus, como filhos amados; e andai em amor como Cristo, que também nos amou e se entregou por nós a Deus como oferta e sacrifício com aroma suave.” Aliás, é sua forma de vida comprometida com o Evangelho que faz com que o mentor seja escolhido. Ele é observado, estudado, gera afinidade e atrai pessoas que se dispõem a caminhar e aprender com ele. Ele não é caminho, mas sim uma seta a apontar e ajudar a caminhar após o Caminho. Ele não é a Verdade, todavia, ajuda a encontrar e permanecer na Verdade. Ele não é a vida, mas investe e cuida de vidas, ajuda a outros a desenvolver vida espiritual sadia bebendo do Evangelho de Jesus Cristo, a Única Fonte de Vida.

Existem muitas literaturas boas sobre Mentoria, tanto cristãs, como seculares. Em seu livro, “Mentoreando no Século I”, Edward L. Smither falando sobre o termo, escreve:

“Embora só tenha entrado em voga na América do Norte em anos recentes, o conceito de mentorear é antigo. Em algumas culturas africanas, mentorear refere-se ao processo pelo qual um menino se torna homem, ou a um jovem que aprende alguma habilidade, como tocar tambor, ou a um novato que trabalha como aprendiz de um ofício sob o comando de um mestre, como a carpintaria. Milavec cita exemplos, colhidos da cultura grega, de novatos sendo mentoreados nos trabalhos de tecelagem de cestos, ou de caça com arco e flecha, ou de fabricação de objetos de cerâmica. Hoje, na América, mentorear veio a ser sinônimo de aconselhar, informar, instruir, preparar e ministrar aprendizagem, ao passo que alguns contextos incluem ofícios, esportes, educação e belas artes. Embora os contextos e as culturas variem, mentorear significa, na essência, que um mestre, ou um perito, ou alguém que tem significativa experiência, infunde conhecimento e habilidade a um novato em uma atmosfera de disciplina, compromisso e responsabilidade. – Apesar de não existir no Novo Testamento e nos textos cristãos primitivos nenhum equivalente exato para o termo mentorear, há, porém, algumas palavras associadas que juntas expressam esse conceito. Encontramos, por exemplo, verbos como “fazer discípulos” (mathēteuō), “ensinar” (didaskō), “instruir” (didaxō), “ser sadio” (hugiainō), e “seguir” (akaloutheō), e também substantivos, como “discípulo” (mathētēs), “mestre” (didaskalos), “imitador” (mimētēs) e “instrução” (didachē). Com uma primária ênfase à noção de “discípulo” (mathētēs), consideremos as palavras chaves relacionadas com “mentorear”, que nos falam especificamente sobre a fé e a conduta próprias de um discípulo.”.

Comentando a obra de Edward L. Smither, no capitulo em que aborda “Agostinho Como Mentor”, Cavaco (2015), escreve: 

“Agostinho tem um currículo de ter sido pastor durante 40 anos em Hipona. Se há sucesso do pastorado de Agostinho, ele passa necessariamente pela amizade. Agostinho tinha sempre um lugar a mais na sua mesa e a porta do seu quarto aberta. Agostinho não sabia viver a sua fé sozinho. Mentorear não deve ser uma actividade tida como estranha para os cristãos. Na própria tarefa de fazer discípulos (metheteuo), de ensinar (didasko), entre outros termos bíblicos, está subjacente a ideia de um processo de encaminhamento em que alguém instrui outro num sentido de totalidade. Como é que isto se via na prática? Alguém que era ensinado no evangelho, era ensinado na sã doutrina. Ora, a sã doutrina era o ensino que se adequava às Escrituras hebraicas, aos ensinos dos apóstolos e aos escritos deles (que estavam a constituir o Novo Testamento). Ser educado na sã doutrina era dominar este universo diverso. Mas isto não era uma coisa teórica. “Os escritores dos evangelhos mostravam que era inteiramente impossível separar a fé acerca da pessoa e dos ensinamentos de Jesus da obediência a esses ensinamentos.” Aprender alguma coisa era viver essa coisa. Daí que didaché podia ser traduzido como ensino mas, mais rigorosamente, como treino.”

Não se deve confundir mentoria/discipulado bíblico, aconselhamento, pastorado responsável e sujeição mútua, com a “cobertura espiritual”. Todos os supracitados são baseados nas escrituras e na Tradição da Igreja, já a “cobertura espiritual” é modismo neopentecostal, que tem invadido Igrejas históricas.”.

1) O discipulado ou mentoreamento: 2 Tm 2.1,2 “Transmite a homens…”

2) O aconselhamento cristão – “Instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente” (Cl 3.16).

3) O pastorado responsável – I Pedro 5.1-5

4) A sujeição mútua – Ef 5.21 “Sujeitai-vos uns aos outros”

A ideia de ter um líder como cobertura espiritual está mais próxima as antigas doutrinas do Papado católico romano do que da herança reformada. “Além disso, nós declaramos e definimos que é absolutamente necessária para a salvação que toda criatura humana esteja sujeita ao Pontífice Romano” (Papa Bonifácio VIII, Unam Sanctam, Rome: 1302) (LINDERBER, 2001) No catolicismo romano o papa é tido como o Vigário de Cristo, cabeça visível da Igreja, e toda a cristandade católica o tem como sumo pontífice. Há no catolicismo um sistema sacerdotal, pois a missa é sacrifício oferecido cotidianamente nos altares católicos.

Nós pastores evangélicos não fazemos parte de uma ordem sacerdotal com unção especial para o exercício do pastorado. Nosso culto não é sacrifício, não temos altares, mas sim, mesa de comunhão. A luz da Palavra de Deus e da Reforma Protestante, entendemos que somos parte de um povo sacerdotal, que a Igreja, corpo de Cristo é um corpo sacerdotal, no qual exercemos funções especificas, todavia, não somos mediadores no culto a Deus por meio de Cristo. Pedro assim declara: “Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as grandezas daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz.” 1 Pedro 2:9

O mentor ou discipulador fiel aos ensinos de Cristo, ora por seus mentorados, mas assim como Jesus fez, os ensina a orar, não os mantém cativos a si, como eternos dependentes, antes agindo como Paulo em 2 Tm 2.1,2 , os capacita e os envia a fazer o mesmo com outros. Orar uns pelos outros, se colocar a interceder por alguém, ter alguém ou um grupo de pessoas intercedendo em nosso favor é algo bíblico. Tiago no capitulo 5, versículo 16, de sua carta nos orienta a isso, sem contudo, apontar que somente pessoas especificas, com unção ou posição especial, podem fazê-lo. Crer na cobertura espiritual é crer que somente uma classe “sacerdotal” tem acesso a Cristo, e os demais têm acesso através deles. É a mesma coisa que ocorre no catolicismo popular, onde as pessoas acreditam que recorrendo a seus santos padroeiros, esses recorrerão a Cristo e intercederão por eles. Respeito quem faz e quem se submete, todavia, a meu ver, cobertura espiritual, da forma que é apresentada no Neopentecostalismo, é heresia, jugo, doutrina de homens que tentam usurpar a autoridade de Cristo, fere essa declaração bíblica: Porque há um só Deus e um só Mediador entre Deus e o ser humano, Cristo Jesus, homem. – 1 Timóteo 2:5

Rev. José do Carmo da Silva

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Bibliografia

SMITHER, Edward L. Capítulo 1 “Agostinho Como Mentor – Um modelo para preparação de líderes.” – Mentoreando no Século I. Ed. Agnus, págs 12.13. 2012 . Páginas: 320

• LINDERBER, Carter. As Reformas na Europa-Tradução de Luiz Henrique Dreher e Luiz Marcos Sander . São Leopoldo. Sinodal. 2001. Pg.

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