Heranças desamparadas a procura de quem as desamparou – Sobre pais e filhos separados

Publicado: 22/01/2013 em Uncategorized

“Eis que os filhos são herança do SENHOR,…” Salmo 127:3

imagesDe três em três semanas, sempre que ocorria a mudança de turno era a mesma coisa. No novo turno, na extratora de òleo vegetal eu entrava as treze e trinta e saia às vinte e duas horas da noite. Meu itinerário era sempre o mesmo. Eu tomava o caminho do tamarindeiro em direção ao ponto de ônibus e de longe o avistava. Parecia que era combinado, aliás, penso que se combinado fosse, talvez não tivesse havido tanta sincronia. Era sempre na mesma hora, ele estava sempre no mesmo lugar. Sempre estava sozinho, só de shorts, sem camisa, descalço. Penso que devia ter uns cinco ou seis anos de idade.

À hora mais importante do dia dele era quando o homem de uniforme verde apontava no horizonte e vinha caminhando em direção a ele. Quando me via deixava de lado seus carrinhos feitos de tocos de madeira, latinhas de leite, alguns de plásticos faltando algumas rodinhas e ficava me olhando. O olhar dele me intrigava, pois me encarava, porém nada perguntava; calado em silêncio simplesmente parado, introspectivo ficava a me olhar, e seu olhar intrigante e enigmático me seguia até quando não mais podia me ver quando eu fazia a curva no velho pé de tamarindo. Eu pensava que o que chamava a atenção dele era meu uniforme verde.

A rotina ocorreu por muitos meses, até que um dia quando virei à esquina da rua da casa dele notei que havia um garoto maior brincando com ele. Percebi que ao me avistar ele falou algumas palavras para o amigo e ambos pararam de brincar e ficaram a me olhar de longe.  Conforme eu me aproximava deles, aumentava o meu constrangimento, pois agora havia dois garotos me olhando o tempo todo.

Para minha surpresa, quando cheguei perto, lado a lado deles, o maior quebrou o silêncio e com as duas mãos unidas estendidas a mim, disse: – “Bença” tio! Eu cheio de surpresa e curiosidade parei e respondi: – Deus te abençoe! O outro, o menorzinho, nada dizia, só olhava. O maior sem fazer rodei, olhando para meu rosto, disparou a pergunta: – É verdade que o senhor é o pai dele?

Naquele momento me deu um frio na alma, meu coração acelerou, olhei para o garotinho, o meu admirador que me esperava todos os dias ali na beira da estrada, e notei que ele esperava uma resposta. Só que dessa vez, não olhava para minha face, como de costume, talvez envergonhado. Como sempre ele estava só de shorts, sem camisa, descalço e sujo pela terra na qual brincava com uma patolinha de madeira, uma ripa de uns trinta centimentros pregada na ponta de uma viga 6/12, com rodas feitas de borracha de chinelas, provavelmente feito por ele mesmo. Ali olhando para o chão, aquela criança esperava uma resposta. O silêncio tomou conta de todos nós.

Sentindo a responsabilidade, eu pensei: e agora Senhor? Como saio disso? Então coloquei a mão no bolso de meu uniforme, peguei algumas balas de hortelã que costumeiramente levava para o trabalho, e dei duas para cada um. Abaixei-me, puxei o menorzinho para perto de mim, com a mão no ombro dele, olhando-lhe na face disse: – Ola! Como é seu nome?

Ele nada me respondeu; embora levantou a cabeça e agora me olhava, e as lágrimas já umedeciam os olhos dele.

Então prossegui: – Olha… Eu não sou o seu pai. Mas posso ser seu amigo. Eu moro há três quadras daqui, se você quiser ir lá brincar com meus filhos, todos nós podemos ser amigos. Você aceita? Ele não respondeu nada. Com o corpo trêmulo, passava as mãozinhas sujas no rosto o qual ficou borrado pelas lágrimas que descia, e repentinamente saiu de perto de mim em desabalada carreira rumo a casa dele. O outro garoto também foi embora não deu sequer tempo de perguntar o nome deles ao maior.

Aquele dia, eu subi para o ponto pensando sobre o que teria levado aquele garotinho sem pai pensar que eu fosse o pai dele. Acredito que numa das vezes que por ali passei, a mãe dele pode ter dito que o desconhecido pai dele se parecia comigo, e talvez ele tenha entendido que o pai dele era eu. Talvez nem ela soubesse quem fosse o pai dele, e de tanto ele perguntar quem era o pai, ela para se safar apontou o primeiro que viu na rua, e o primeiro fui eu. Fiquei tentando imaginar que cada vez que eu virava a esquina e ele me via, ele pensava, lá vem o pai…, hoje vou tomar coragem e falar com ele…

A experiência vivida naquele tarde fora marcante, tanto que foi difícil trabalhar, me concentrar, pois fiquei pensando nos milhares de crianças sem pai espalhados pelo Brasil e mundo afora. Os frutos dos carnavais, das noitadas regadas a muitas cervejas, das rapidinhas no banco traseiro do carro. Fiquei pensando nos filhos dos casais divorciados cujos ex-maridos vão embora de casa e se esquecem de que os filhos são para sempre, pois embora ele tenha deixado de ser uma só carne com a esposa, vai ser um só sangue com os filhos até que a morte chegue para ele ou para eles.

Lembrei-me das muitas crianças que não sabem quem são seus pais, que nos dias festivos delas, como dia das crianças, aniversários, natal, elas esperam o pai aparecer e dar a elas um abraço e um presente. Ou pior, no dia dos pais, enquanto na escola a maioria faz um presente para levar para seus pais, elas não possuem a quem entregar…

O Salmo 127:3, diz: “Eis que os filhos são herança do SENHOR,…” Penso que, não importa a maneira que vieram ao mundo, herança é sempre herança.  Penso que, seja dentro ou fora de um casamento, pai é pai, filhos são filhos, e herança será sempre herança. Eles procedem de Deus, e ai daquele que a sua herança filial jogar fora.

A Bíblia diz que certa feita Iahweh disse a Caim: “Onde está teu irmão Abel?” Ele respondeu: “Não sei. Acaso sou guarda de meu irmão?” Iahweh disse: “Que fizeste! Ouço o sangue de teu irmão, do solo, a clamar a mim!”

Penso que, um dia, Aquele que nos concede os filhos como herança, irá perguntar aos pais que abandonaram a herança a eles dada: “Onde estão teus filhos?” – E eles não poderão dizer como Caim: “Acaso sou guarda de meus filhos?” Não poderão responder como Caim, mas poderão ouvir o que Caim ouviu: “Que fizeste com a herança que te confiei? Dia e noite eu ouvia e via o clamor, o choro, a dor do abandono, a angústia, dos meus filhos que a ti confiei, e você os abandonastes na rua, na casa, no orfanato, na fundação casa, na cracolândia, no presídio, senti a dor e ouvi cada choro deles a clamar a mim!” Sim. O Doador da herança vai pedir conta dela…

Antes da minha conversão, abandonei meu lar com esposa e um casal de filhos. Vivendo de forma dissoluta, curtindo a falsa liberdade que o mundo e o pecado oferecem segui o que julgava ser felicidade. Em meio aos espinhos que semeei, Deus me concedeu a dádiva de uma flor, uma benção, uma herança, um filho. Eu o assumi, registrei, cuido e convivo com ele. Há 14 anos, quando fui encontrado pela graça, Deus restaurou meu matrimônio, voltei para meu lar, e uma das coisas que deixei claro a minha esposa é que não desampararia meu filho, pois não o via como fruto do pecado, pois do pecado nasce sempre à morte e não a vida.

Ela aceitou, Deus curou as feridas da separação, hoje ele convive conosco, passa as férias em casa, e eu sou grato a Deus pela vida dele. Filho é filho, herança é herança…

A respeito do garotinho que ficava a me espreitar, achando que eu era o pai dele, não mais tive noticias, pois a ultima vez que o vi foi após o encontro no qual ele soube que eu não era o pai dele. Naquele ano, no mês de outubro, ouve mudança de turno, e no retorno de madrugada parei em frente da casa dele, olhei de um lado, olhei de outro e furtivamente pulei  a cerca de arames farpados, fui até o tanque de lavar roupas no fundo da casa e deixei uma caixa embrulhada em papel de presente com um bilhete no interior dizendo assim:

“Você é uma criança linda, não sou o seu pai, mas fico feliz em ser seu amigo. Um dia você vai encontrar seu pai, se não encontrar o verdadeiro, certamente você vai encontrar um pai de verdade, que não te gerou, mas com amor vai cuidar de você até você crescer e pai também se tornar. Feliz dia das crianças – Assinado: o homem do uniforme verde.”

No outro dia fiquei de longe olhando ele brincar com a “patrolinha” amarela que o presenteei. Dois meses depois mudei com a família, como evangelista, para assumir o trabalho em Fátima do Sul – MS, onde estou pastoreando há dez anos.

Concluo perguntando: E ai pai? Já abraçou sua herança hoje? Não? Nem sabe onde ela anda? Voce a abandonou? Aceite um conselho amigo, busque-a enquanto O doador não venha a respeito dela pedir conta a ti.

Reverendo José do Carmo da Silva – mano Zé do Egito

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