Reedição das Memórias de um MD (Missionário Designado) diante da crise do ser ou não ser

Publicado: 29/04/2010 em Artigos, BlogBlogs.Com.Br, Cronicas Cristãs, ministério pastoral, Missão, Uncategorized
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INTRODUÇÃO

O exercício do ministério pastoral traz um peso de responsabilidade sobre nós, pois ao recebermos a ordenação, ou uma licença para exerce-lo, já não somos mais pessoas comuns. Ser pastor/a no Brasil, “por hora” ainda é ser pessoa na qual boa parte da sociedade “ainda” deposita créditos. Essa boa parte da sociedade espera que o/a pastor/a viva de acordo com o que prega honrando o Nome de Deus, da Igreja Cristã, e da Denominação que representa.

Frisei “por hora” e “ainda”, pois teorizo que diante de tantos escândalos envolvendo pastores/as e falsos/as pastores/as, tais créditos estão se esgotando. Ainda mais num tempo em que do lado “protestante” “pastores” são pegos traficando armas, ou envolvidos em roubos, enquanto do lado católico romano, padres são presos por pedofilia e a TV mostra em horário nobre todo um programa de jornalismo policial onde um “respeitavel” monsenhor de 83 anos é flagrado fazendo sexo com um coroinha.

Neste artigo quero partilhar um pouco da minha caminhada e rememorar a “dança das siglas” e as experiências que vivi ao longo de sete anos. Se você tiver paciência de me acompanhar, quem sabe descobrirá que seguimos a mesma trilha. Este artigo narra uma caminhada maravilhosa, onde dei o primeiro passo como Evangelista, passei a Missionário Designado, depois para Pastor acadêmico, e agora estou Aspirante ao Presbitério. A caminhada não terminou, daqui há sete anos se Deus me conceder graça, continuarei a narrar a sequência dela. Vem comigo! Vem conhecer um pouco sobre a crise do:

“SER OU NÃO SER?”

Há sete anos, quando era um evangelista na Igreja Metodista Cabeceira Alegre em Dourados – MS, fui desafiado por meu pastor Marcio Bandeira e pelo Superintendente Distrital Getro da Silva Camargo, a mudar-me para Fátima do Sul, e fazer um trabalho junto à comunidade metodista ali existente. A Igreja em Fátima do Sul, apesar de seus trinta e cinco anos na época estava com sua membresia reduzida a quinze pessoas, e segundo alguns membros mais antigos, houve vezes de no culto de domingo ter apenas cinco pessoas. Falei com minha esposa e filhos, e aceitamos o desafio proposto.

Mudamo-nos para Fátima do Sul, por um tempo trabalhei como pedreiro, tempo depois eu consegui trabalho em uma fábrica e instaladora de padrões elétricos. Mnha esposa arrumou trabalho de doméstica, depois passou a trabalhar no DETRAN da cidade. 2003 foi o ano que marcou meu ministério, pois com muito trabalho fora e dentro da igreja, em dezembro recebemos onze novos membros, os quais foram recepcionados pelo pastor Gabriel Colhante, o qual substituiu Marcio Bandeira em Dourados. Naturalmente como um evangelista eu não podia realizar atos pastorais, razão pela qual a cada mês vinha um pastor/a do distrito para ministrar a Santa Ceia.

A comunidade foi-se levantando, membros afastados voltando, recebemos muitas pessoas. Os resultados eram claros, a igreja se fortalecia e a comunidade começou a clamar e reclamar, pois queria receber de minhas mãos os sacramentos. Tivemos o apoio do SD que levou a questão ao Bispo João Alves de Oliveira Filho, presidente da 5ª Região
Eclesiástica. O Bispo sendo sensivel ao clamor do povo metodista fatimassulense, no Concílio Regional de 2004 concedeu-me uma designação para o exercício dos atos pastorais. Assim, de Evangelista passei a ser MD, (Missionário Designado com funções pastorais).

Foram tantas coisas ocorridas, tantas as experiências vividas, tantas as emoções sentidas, mas meu foco é o periodo que passei a ser Missionário Designado, pois foi sob esse título que enfrentei logo de inicio a crise do “ser e não ser”. Se alguém me perguntasse o que é o (MD) Missionário Designado? Embora eu tenha sido um, eu não saberia responder claramente. Penso que o Missionário Designado é uma pessoa ministerialmente indefinida, figura que não aparece em Cânones, mas aparece nas igrejas, o que lhe faz uma pessoa cheia de contradições no exercício de seu ministério, pois oficialmente não é pastor ao mesmo tempo em que laboralmente o é.

As indefinições acima citadas faziam com que, diante dos muitos debates nos Concílios Distritais, muitas vezes eu saísse com uma tremenda crise de identidade. Tal crise ocorria, pois para minha igreja comunidade eu era pastor, mas diante da Igreja Instituição, o que ficava bem evidenciado nas reuniões, votações e atas conciliares é que eu não era pastor. Lembro-me de um episódio, em que um missionário que servia na Igreja de Bela Vista – MS, após ter concluído o CTP e ter entrado no Período Probatório, diante da leitura de uma ATA feita por um Reverendo que secretáriava o Concílio Distrital fez o maior escarcéu. O fato inusitado ocorreu quando o secretário citou-o ainda como sendo MD. O revoltoso pastor que atualmente deixou o ministério e a Igreja Metodista, disse em tom prepotente: “Missionário Designado!!! Reverendo, eu já não sou mais MD, eu exijo que o senhor faça a correção dessa ATA!”.

Deus ajudou-me a superar tal crise, quando por ocasião de um Concilio Distrital na Igreja Metodista Central de Dourados, a Pastora Zenaide, que pastoreava a Igreja Metodista na cidade de Ponta Porã, fronteira com o Paraguai, chamou-me de lado, durante um intervalo, e abrindo sua Bíblia, mostrando-me uma passagem, disse: Pr. Zé do Egito, Deus mandou você fazer isso aqui: “Tu, porém, sê sóbrio em todas as coisas, suporta as aflições, faze o trabalho de um evangelista, cumpre cabalmente o teu ministério”. (2 Tm 4.5)

A partir daquele momento senti a paz de Deus em meu coração. Fui convencido pela Palavra inspirada de que, independente do titulo que antecedia meu nome, Deus tinha para mim um chamado, e que cabia a mim fazer minha parte, pregar o Evangelho.

O tempo passou e pela graça de Deus, e em 2005 ingressei no Seminário Bispo Scilla Franco em Lins – SP, para fazer o Programa Pré-Teológico, que hoje se chama (POV), Programa de Orientação Vocacional, agora eu era um Seminarista. Depois de muitos estudos, sacrificios familiar e pessoal, fui aprovado, e em 2006 iniciei a faculdade via semi-presencial. Aumentaram as lutas, as despesas financeira, a dedicação aos trabalhos acadêmicos. Aumentou também o tempo longe da esposa, dos filhos, da comunidade de fé. As viagens eram tantas que no segundo ano de CTP no dia do pastor a comunidade me presenteou com uma bela e grande mala de rodinhas. A partida era sempre emocionante, alguém que possuía carro me levava a rodoviária, oravamos ali, e ao nos despedirmos prometiam que ficariam orando e torcendo por mim.

Para poder financiar as viagens de Mato-Grosso-do-Sul a São Bernardo do Campo – SP, comer, adquirir os livros e apostilas requeridos pelos professores, vendi meu fusca, passei a pastorear de bícicleta. Atualmente deixei de ser PC – Pastor Ciclista e me tornei PM – Pastor Motoqueiro.

No final de 2009 conclui o Curso Teológico Pastoral, para a Igreja Metodista me tornei, BT – Bacharel em Teologia. Não foram só minhas siglas que mudaram, muitas outras mudanças ocorreram nestes sete anos. O tempo, o trabalho, as orações, a missão, os concílios, a ação do Espírito Santo trouxeram transformações para a Igreja em Fátima do Sul, para o Distrito MS, para a Igreja Metodista na 5ª Região e no Brasil.

Mas em 2009 devido uma das decisões do Concilio Geral eu e meus pares que estavamos no último ano da faculdade de teologia, recebemos o título de “pastor/a acadêmico/a”. De MD passei para PA – Pastor Acadêmico, fiquei feliz, mas confesso que, o novo “título” não mudou em nada minha maneira de trabalhar. No final de 2009 conclui o Curso Teológico Pastoral, para a Igreja Metodista me tornei, BT – Bacharel em Teologia.

A passagem pela Fateo ampliou minha visão pastoral, acrescentando conhecimento as experiências que eu já possuia. O Pastor Acadêmico, título transitório, documentalmente tem visibilidade dentro da Igreja Instituição, uma vez que é fruto de uma decisão conciliar geral. É diferente da situação dos/as Missionários/as Designados/as que não são tratados/as de forma clara nas páginas dos Cânones e demais documentos da Igreja Metodista, mas enquanto pessoas são bem presentes, visíveis e atuantes em muitos campos missionários da mesma Igreja por este Brasil a fora.

Confesso que sinto saudades da Turma do CTP 2006, dos/as professores/as da faculdade de teologia. Chegavamos ali na UMESP, para passarmos pouco mais de dez dias, mas eramos sempre bem acolhidos. Sinto saudades de todos, das aulas, das polêmicas, dos choques entre vida de piedade das comunidades e o ambiente universitário. Das conversas com alunos e mestre nos corredores, dos debates que aconteciam no “SENZALÃO” como chamavamos a sala coletiva onde ficavamos alojados. Recordo-me dos debates entre os”CANELAS DE FOGO” como chamavamos os avivados e os “CANELAS DE GELO”, irmãos que pegavam no pé da turma chegada as vígilias do “Reteté de Jeová”.

Para alguns eu era um cara inteligente, alguns amigos me chamavam de “mestre”, outros de “bispo”, havia também os que me chamavam de polêmico, metido a sabe tudo, cheio de querer encurralar professores com questões complicadas. Mas que tempo bom! Tempos que não voltam mais, que passou, mas deixou saudades, experiências e boas lembranças. Admito que após a formatura, entrei em crise, por que não tinha mais trabalhos para fazer, então retomei a leitura de alguns livros que usei nos quatro anos de estudos teológicos. A cada página relida, me vem a memória os professores, os colegas de classe.

No tempo acadêmico supracitado, fiz amigos e irmãos, pude crescer bastante aprendendo com os docentes e discentes, conhecendo e convivendo com pessoas de quase todo o Brasil.

Mas, sinceramente a saudade maior que sinto é de meu tempo de Missionário Designado, aliás tudo acima relatado por cinco anos, vivi enquanto Missionário Designado. Com a sigla MD, eu costumava brincar nos Concílios Distritais, quando o assunto sobre o que podiamos ou não podiamos fazer vinha à baila, e quase sempre ele vinha. Naquele tempo eu brincava com alguns/mas colegas dizendo que, certa vez eu estava em crise, e em meio a ela, clamei a Deus, falando a Ele:

“- Senhor, a Igreja instituição em seus documentos diz que não sou pastor, aliás, nem apareço em tais documentos. Por outro lado Pai, a igreja povo me chama de pastor, pois lá sim apareço, eu atuo, pregando, batizando, fazendo ofícios fúnebres, ministrando a Santa Ceia, e até expulsando demônios!! Senhor, Tu sabes bem, que aqui em Fátima do Sul, só faço tais atos pastorais, porque não tem nenhum/a REVERENDO/A por perto. [menos expulsar demônios, pois para tal ato não precisa usar títulos, basta crer no Nome de seu Filho, Nome que é sobre todos os nomes]. Verdade é Senhor que estou atravessando a crise do: ser e não ser! Pois sou, ao mesmo tempo em que não sou!

Pode parecer complicado Pai, mas deixe-me explicar: Oficialmente, pastor, dizem que não sou. Presbítero muito menos. Evangelista não tenho o curso exigido pela Região. Socorra-me Deus! Ajude-me a desfazer essa confusão na minha cabeça, pois alguns/as pastores/as chamam-me de MD, outros/as me chamam de pastor. Aqui na minha cidade há quem me chame até de Reverendo Zé do Egito.

Mas já me advertiram que não pode tal coisa, pois fere as normas eclesiásticas. Tentei argumentar que as pessoas de fora não compreendem os tramites internos da Igreja. Não sabendo diferenciar evangelista de pastor, muito menos reverendo do pastor! (Se é que há diferenças), por isso fiquei na minha quando me chamaram de Reverendo, pois tentar explicar isto para os de fora, seria a mesma coisa que discutir “o sexo dos anjos”.

Paizinho, eu argumentei que fui chamado assim, talvez pelo fato de que para aquela pessoa todo pastor independente do título, por pregar a Palavra de Deus, visitar, orar, aconselhar, evangelizar, pastorear com esmero se torne digno de reverência. Mas, meus argumentos caíram no vazio, pois teve irmão que sacou dos Cânones e provou por A + b que sou MD e mais nada! Disse enfaticamente que, embora o MD possa realizar atos pastorais, sua existência não é canônica. Pois é Pai! Diante de tanta confusão, eu já nem sei quem sou. Mas, me diga Ó Divino Mestre, o que sou eu? uma vez que, só tu és o Eu Sou?

Diante de meu “miserere” missionário, uma voz como de muitas águas disse para mim: _ Zé do Egito, saiba que tu és um MD!

Eu indaguei. _ MD de Missionário Designado, Senhor?

A Voz respondeu-me: _ Não. “Mestre Divino!”

Se Deus estivesse preocupado com siglas e nomenclaturas e diante Dele tivesse mais valor o titulo que antecede nossos nomes, do que o serviço e testemunho que prestamos do Nome Dele, com certeza a jocosa e fictícia oração acima citada poderia passar como verdadeira e seria uma maldição e não benção. Pois ao ser chamado, por Deus de Mestre Divino, para não me encher de soberba, prepotência, vaidade e egolatria, Deus teria que por em mim não “um” espinho na carne como fizera a Paulo, mas sim um rolo de arame farpado em volta de todo meu ser.

Digo isso porque os títulos muitas vezes inflam nossos egos, e se Deus não nos der umas “espinhadas santas” eles crescem tanto até explodirem. Assim sendo, acredito ser por isso que independente das nomenclaturas por nós adotadas por fins burocráticos, as Escrituras Sagrada, chama-nos a sermos e vivermos como “servos/as”. Embora os “títulos” sejam necessários para uma melhor organização dentro da Igreja, existem pessoas que se apegam a eles. E em seus ministérios as únicas coisas que possuem é nomenclaturas e nada mais, pois estão com as mãos vázias de obras para apresentar a Deus.

O DESAFIO DO SER PASTOR

Tenho aprendido que ser pastor/a é uma responsabilidade e tanto, e conviver com isso não é nada fácil, pois é difícil sair e deixar o pastor/a em casa, ou na igreja. Ele/a vai conosco, ele/a está em nós, seja na Igreja, seja na cama, seja na pizzaria, seja na lanchonete.

A nomenclatura “Pastor/a”, pode nos exaltar ou rebaixar. Tal ambigüidade se manifesta de forma mais intensa, em meio aqueles que sabem o real peso do título e a responsabilidade dele advinda. Quando o pastor/a comete um deslize alguém sempre indagará: “mas ele/a não é um/a pastor/a?” Na hora de abrir o crédito no banco ou na loja, ao se apresentar como pastor/a, em determinados lugares muitas vezes já se tem metade do crédito negado. Para começar, quando for preencher o cadastro se não tiver outra formação tera que se apresentar como autônomo, pois em muitos lugares ainda não se reconhecem a função, não tendo em que profissão marcá-la. Porém, todos se lembrarão que o/a cliente é pastor/a se por um motivo ou outro a conta não for paga no prazo certo. Sempre se ouvira diante da falha cometida este comentário: “ainda diz que é pastor/a!”

A maior dificuldade no ministério é quando precisamos ir a lugares onde a sociedade e mesmo as Igrejas consideram inadequados para um/a pastor/a ir. Pois, carregar o titulo de pastor/a é carregar uma marca, que todos esperam que seja de distinguibilidade. E isso muitas vezes gera o conceito dualista de espaços sagrados e profanos. E nos considerados profanos, o/a pastor/a não poderá entrar. Ex. se o/a pastor/a estiver com sede e parar num bar e pedir um copo de água e alguém ver, certamente dirá que era CACHAÇA, pois o bar é um lugar profano. Mas, se o pastor estiver no pátio da igreja ou da casa pastoral tomando um copo de CACHAÇA, o transeunte certamente pensará e dira que é água. Pois a igreja ou a casa pastoral é um espaço sagrado. E se acaso Jesus Cristo quiser ir até um desses lugares “profanos”, que use outra maneira, que vá de outro modo, menos na pessoa do pastor/a.

A responsabilidade recai não só sobre nós, que temos o nome antecedido por siglas como: Pr, Prª (pastor/a), Ap, (Aspirante ao pastorado), AP Aspirante ao Presbitério- Pb, Pbª (presbítero/a), Rev/ Revda (Reverendo/a)… Pois os “títulos” afetam e muda também a hábitos e identidades de nossas famílias. Se o pastor/a for casado/a, e tiver filhos/as, ambos perdem seus nomes, passando a ser conhecidos/as: como esposo/a, do pastor/a, filho/a do pastor/a. Sendo muitas vezes cobrados em demasia, perdendo em certas comunidades o direito humano de errarem, pois sendo uma família pastoral dela se cobra perfeição.

É interessante que o pastor/a é quase sempre visto como um ser a parte, quase que sem gênero. Exemplo: Quando você no exercício do ministério for fazer uma visita, leve junto outra pessoa cujo nome não seja antecedido por nenhuma sigla. Observe que ao bater palmas, certamente alguém olhará pela janela e dirá: “é um homem mais o pastor! ou é uma mulher mais a pastora!”.

Certa vez, uma irmã muito querida e seu esposo, chegaram até a mim, após e escola dominical, e disseram: “-pastor queremos que o senhor venha conosco, almoçar em casa, porém com uma condição.

Perguntei – Qual?

Ela disse: – que o senhor deixe o pastor em casa, não queremos nem que ore pela refeição, não queremos ouvir o senhor falar nada de Bíblia e igreja, nós queremos que o senhor seja o senhor mesmo, sem agir como pastor.”

Eu achei estranhas aquelas condições, mas aceitei, (afinal o que vem a mim de maneira alguma lanço fora, e como de tudo que se apresenta a mesa sem procurar pela procedência) porém não consegui cumprir o trato, quando me dei conta, estava falando de igreja, de Bíblia, de Deus, e indicando para eles o filme evangélico: “Desafiando gigantes”.

Mas ser e viver como pastor/a é um desafio que na atualidade exige muito mais do que falar de Deus, da Bíblia ou demonstrar um linguajar evangélico. Implica em se comprometer com o mundo por quem Deus por amor enviou seu Filho único. Neste mundo, pelo comportamento que se espera de um/a pastor/a temos a obrigação se sermos diferentes, sem, contudo sermos indiferentes, ou alienados/as. Penso que em certo sentido, somos chamados a sermos “mundanos”, pois Jesus orou: “Pai eu não vos peço que os tire do mundo, mas que os livre do mal” (Jo 17.15).

Temos que viver no mundo e amá-lo, agindo em sua transformação como agentes do Reino de Deus, numa luta para discernirmos os sinais do Reino manifestos fora da Igreja. E com estes sinais extra Igreja sabiamente fazermos pontes. Isto implica em sermos “mundanos”, sem vivermos de forma libertina seguindo os valores errôneos e sistema iníquo que operam no mundo.

Somos chamados a exercer o ministério em uma sociedade brasileira, na qual quanto mais aumenta o número de evangélicos, menos transparece o Evangelho. Pois a igreja brasileira cresce no quesito quantidade, mas tem deixado a desejar no essencial que é envolvimento com a transformação do mundo por meio de uma práxis cristã com impacto espiritual e social. Na atualidade o exercício de um ministério pastoral genuíno se torna cada vez mais desafiador, pois basta uma rápida pesquisa na internet, e logo se depara com cursinhos de seis meses, dos quais se sai “bacharel em teologia”. Além do pouco tempo de estudo, o matriculado conta com a benesse de receber “diploma” e “carteirinha de “pastor/a em casa, via sedex dez.

Em muitos desses “cursinhos” Indivíduos tornam se pastores/as formados/as, ou deformados/as, sem quase nada do ensino Reformado. Alguns/mas são inegavelmente bons/boas oradores/as, com discursos prontos, carregados de jargões e frases de efeitos, ávidos/as para “trabalharem”, pois precisam iniciar suas “pequenas igrejas”, tendo em vista “grandes negócios”. São tais motivos que nos desafiam a mostrarmos ao mundo descrente por meio de nossas vidas consagradas e compromissadas com a Verdade do Evangelho, que existem diferenças entre pastores/as e “pastores/as”, Igreja compromissada com o Reino de Deus e sua justiça, e igreja interessada no reino do mundo e sua cobiça. E para piorar a situação, atualmente o/a pastor/a tem que conviver com
constantes comparações entre seu desempenho real na comunidade e dos/as tele-evangelistas
famosos/as, que virtualmente pastoreiam seus membros.

É amado/a leitor/a, você que já é, ou almeja ser pastor/a, saiba que alguns títulos pesam sobre nós, eles grudam, impregnam, não largam. A coisa é tão séria que, mesmo quando se deixa o ministério, tanto dentro como fora da igreja a pessoa será sempre lembrada como um/a: “ex – pastor/a”. Mesmo deixando o exercício da função, o titulo permanece.

A Bíblia Sagrada tem inúmeros conselhos para o desempenho eficaz do ministério pastoral. Pois, pelo Brasil e mundo existem milhares de homens e mulheres vocacionados/as, que aceitaram o chamado, para ser, viver, sofrer e até mesmo morrer como pastor/a. Servos e servas que servem em lugares de pobreza extrema, em meio a guerras, favelas, presidios, populações ribeirinhas… A maioria dessas pessoas certamente nunca apareceram e provavelmente jamais aparecerão na mídia, são desconhecidas pelos homens, mas conhecidas, amadas, levantadas e sustentadas por Deus. Firmadas na fé em Cristo e na dependência do Espírito Santo elas proclamam de graça e com graça por meio de suas vidas o Evangelho da Graça. Seguem com dignidade e humildade, supridas pela Força do Alto, sabendo que exercer o ministério pastoral, em meio a atual banalização do ser pastor/a esta muito longe de ser um mero profissional eclesiástico que mercantiliza a fé negociando o sagrado. Prosseguem conscientes de suas limitações humanas, sendo frágeis vasos de barro. Vasos imperfeitos, contudo, valorosos em Cristo, pois a tais obreiros Deus revestiu de dignidade ao escolher e capacitar, a fim de fazer por meio de deles/as manifesta Sua Presença ao mundo. Por assim ser, o título por si só, se torna irrelevante, mas a atuação e vivência como um/a fiel e abnegado/a pastor/a, foi e sempre será importante, relevante e necessário a Igreja e sociedade, ainda que seja como o sal, que embora não apareça, confere sabor e preservação.

CONCLUSÃO

Não devemos nos preocupar tanto se a reação da sociedade será positiva ou negativa em relação a nosso ministério pastoral. Importa antes testemunharmos diante dela o Evangelho. Não devemos jamais retroceder, temerosos se para ela o ofício pastoral é coisa de somenos. Não devemos jamais abrir mão de nossos princípios, mesmo quando às vezes em nossas próprias comunidades de fé, algum membro tele-pastorado, nos desprezar, comparando-nos e julgando-nos inferiores aos pregadores midiáticos, dentre os quais, muitos pregam para multidões, mas pastoreiam seus próprios ventres.

Diante das críticas ou desprezos, devemos permanecer fiéis. Dependentes do poder e ação do Espírito, e não do marketing religioso . Apesar das agruras do santo ministério, Deus nos convida a prosseguirmos, usando os talentos que Ele nos concedeu. Nossa bússola deve ser sempre a Bíblia Sagrada, nosso referencial maior Jesus de Nazaré, nosso exemplo humano o Apóstolo dos gentios, Paulo, chamado para sofrer por amor de Cristo. (At 9. 16) O ministério provado e aprovado de Paulo nos ensina que, quando perseguidos, apedrejados, maltratados, preteridos, humilhados, devemos buscar o abandono de tudo e nos fazer totalmente dependentes da Graça de Deus. (I Cor 4. 9 a 13) O antigo discípulo de Gamaliel, quando preterido pelos crentes de Corinto, em nada se julgou inferior aos “super-ápostolos” de seu tempo. (2 Coríntios capítulos 10, 11 e 12) Firmado na sua fé e experiências com Jesus Ressuscitado, que lhe davam certezas do chamado, (At 18: 9, 10) diante das crises reafirmava sua fé declarando: “Porque eu sei em quem tenho crido, e estou certo de que é poderoso para guardar meu tesouro até aquele dia” (2 Tm 1.12)

O que em todo tempo nos servirá de motivação, nos movendo e alavancando mantendo-nos firmes nas promessas do Senhor é sabemos para quem fazemos e sobre quem exercemos o pastorado. As palavras do Apóstolo Pedro, causam – me temor e tremor todas as vezes que as leio, pois elas demonstram que para aqueles/as para quem muito foi dado, igualmente muito será cobrado: “pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós, não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer; nem por sórdida ganância, mas de boa vontade; nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes, tornando-vos modelos do rebanho. Ora, logo que o Supremo Pastor se manifestar, recebereis a imarcescível coroa da glória.” (I Pe 5.2)

Diante das crises emocionais e lutas espirituais, independente da sigla que antecede nossos nomes, devemos olhar para essas promessas contidas nas Escrituras. “Mas graças a Deus que nos dá a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo. 58 Portanto, meus amados irmãos, sede firmes e constantes, sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que o vosso trabalho não é vão no Senhor.” (I Cor 15.57, 58).

Após esta longa reflexão, eu não poderia deixar de fazer um apelo aos delegados ao próximo Concílio Geral, aos homens e mulheres que aprovam e mudam as normas canônicas. Sei das lutas dos MDs e peço que possam definir de forma amorosa, valorosa e clara nas páginas dos próximos Cânones, as atribuições, obrigações dos (MDs) Missionários e Missionárias Designados/as espalhados por este Brasil, principalmente nos campos missionários. Homens e mulheres que muitas das vezes não possuem formação acadêmica, mas, que indubitavelmente na vida ministerial respondem sim, com palavras e atos concretos as perguntas de Wesley: Tens a graça? Tens os dons? Tens os frutos?

Não critico os títulos reconhecidos pela Igreja canonicamente, mas sim quem se apega ou se esconde atrás deles, desvalorizando quem não os possuem, mas que trabalham igualmente na obra de DEUS. Reconheço que eles devem ser meramente organizacionais, não se tornando motivo de orgulho e ostentação, pois quando usados no sentido de organização, são necessários e até benéficos. Mas quando quem os tem se vale deles, se julgando superiores aos demais, penso que se tornam vazios do sentido da simplicidade do Evangelho de Cristo. Títulos são transitórios, pois a Bíblia nos diz que os que morrem no Senhor, levam após si somente suas obras, e não suas nomenclaturas. (Ap 14.13) Elas quando muito, ficarão gravadas nas frias lápides de nossos túmulos.

Com todo amor e respeito à Instituição da qual faço parte cooperando na Missão de Deus em salvar o mundo, prossigo pastoreando e orando no sentido de que, independente dos títulos que antecedam nossos nomes, tenhamos sempre a graça de Deus a nos capacitar. Pois por meio dela poderemos fazer aquilo para o qual fomos chamados a ser, servos e servas, santos e santos, ativos/as e frutíferos/as no pastoreio do rebanho Dele.

Pr. José do Carmo da Silva (Zé do Egito). Atualmente como AP – Aspirante ao Presbitério, se preparando para o exame da Ordem Presbiteral. Com a graça de Deus chegarei lá, mas jamais deixarei de ser Missionário Designado, pois creio piamente que por Deus fui Designado para o exercício do santo ministério, tendo minha vocação reconhecida pela Igreja.

Igreja Metodista em Fátima do Sul-MS.

ESTE TEXTO É UMA REEDIÇÃO, FOI ESCRITO HÁ DOIS ANOS QUANDO EU AINDA FAZIA O CTP. O ORIGINAL SE ENCONTRA NO SITE DA FATEO.

comentários
  1. A Paz de Jesus, Pr. José do Carmo!

    GLÓRIA A DEUS! A ELE SEJA A GLÓRIA, O DOMÍNIO, PELOS SÉCULOS DOS SÉCULOS. AMÉM.

    Que literatura maravilhosa! Glória a Deus de novo! Estou vivendo exatamente agora o que precisava ouvir do Senhor, uma resposta. Que rapidez!…

    O Senhor é mesmo FIEL!

    Sabe, TUDO, exatamente TUDO me foi dito por Deus hoje. Estava preocupada com assuntos pessoais e principalmente o ministério. Todas aquelas dúvidas e insegurança que passa pela nossa mente quando estamos que até nem mesmo nós queremos, mas O Espírito nos impele. É maravilhoso!

    Louvo a Deus pela tua vida e de tua família. O Senhor continue te abençoando ricamente, digo, abundantemente para continuar sendo um MD, REVERENDO, AP, PASTOR OU BISPO, quem sabe…? ELE SABE.

    Por favor continue sendo sincero, porque suas palavras nos chegam exatas como a ciência…muito bom aprender de Deus contigo. Glória a Deus!

    Concordo em gênero, número e grau sobre tudo. É exatamente assim que penso; continue sendo o “porta-voz MM” – METODISTA MISSIONÁRIO, rsssss.

    Muitas ovelhas gostariam de dizer essas coisas, mas não podem, não têm título…

    O Senhor me visitou muito no decorrer da leitura. Saiba que Deus é contigo. Permaneça de pé.

    “Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor; endireitar no ermo vereda a nosso Deus”. (Isaías 40-3)

    Dedico saías 40:1-11)

    A Paz de Jesus pr Zé

    O Senhor abençoe.

    • przedoegito disse:

      Prezada irmã Debora, graça, paz e unção dobrada sobre sua vida. Que DEUS seja glórificado, pois DELE tenho recebido graça e misericórdia para falar aos servos/as DELE. Fica na graça que nos move em MISSÃO.

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