Possuído pelas posses e vazio da graça. O drama de um pobre jovem rico.

Publicado: 29/04/2010 em Artigos, Cronicas Cristãs, Teologia, Uncategorized
Tags:, , , , , , , , , ,

INTRODUÇÃO

Vivemos tempos conturbados. Tempos de apostasia da verdade, onde os “profetas da prosperidade” formam o “clube dos prósperos” via televisão, por meio de cartões de créditos ou boletos bancários. Tempos de mudanças de padigmas nos quais os sinais de uma fé cristã verdadeira são prosperar financeiramente conquistando dinheiro e bens materiais.

Nessa “nova era” onde o “ter” demonstra o “ser” palavras que durante séculos fizeram parte do linguajar cristão, a exemplos de: renúncia, desapego, pobreza evangélica, porvir e etc., cairam em desuso. Em substituição a elas surgiram novas expressões tais como: prosperar, conquistar, determinar, se apossar, triunfar… As Bem Aventuranças são reivindicadas para o aqui e agora, pobreza e sofrimento são coisas para crentes pecadores, amaldiçoados ou fracos na fé, o selo da promessa é ser prospero.

Aproveitando tal cenário que muito se distancia do Evangelho de Cristo, a Campanha da Fraternidade realizada este ano pelo CONIC, além da Igreja Católica Romana, contando com a presença de denominações protestantes tais como: igrejas Luterana no Brasil, Episcopal Anglicana do Brasil, Presbiteriana Unida do Brasil, Sírian Ortodoxa de Antioquia e Evangélica de Confissão Luterana do Brasil, traz o seguinte tema: “Fraternidade e Economia” seguido pelo lema: “Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6, 24).

Diante do acima exposto, por considerar o tema atual e pertinente resolvi colaborar na reflexão postando novamente um artigo/estudo que escrevi em dezembro de 2009. Para mim, a Campanha da Fraternidade além de provocar uma reflexão sobre a economia e má distribuição de renda, tem como meta chamar a atenção para a falaciosa “Teologia da Prosperidade” que vinda dos EUA encontrou terreno fertil no Brasil.

Tal “Teologia ” é amplamente divulgada na Mídia televisiva por alguns tele-evangelistas Neopentecostais e que infelizmente encontra seus defensores de forma isolada também em meio aos pentecostais clássicos, evangelicais e protestantes históricos. Digo de forma isolada, porque embora doutrináriamente os supracitados ramos do cristianismo históricamente não abracem oficialmente tal ensino e prática, a TP pode estar presente neles, por meio de alguns lideres ou movimentos. A Igreja Metodista do Brasil não mais faz parte do CONIC, portanto o artigo é por minha responsabilidade. Contudo, conhecendo a Igreja na qual sirvo a Cristo, e os ensinos que nela aprendi tenho segurança para crer que o que escrevo neste artigo é corroborado por ela.

BOA REFLEXÃO!! LEIA, COMENTE E DIVULGUE…

E eis que se aproximou dele um jovem, e lhe disse: Mestre, que bem farei para conseguir a vida eterna? Respondeu-lhe ele: Por que me perguntas sobre o que é bom? Um só é bom; mas se é que queres entrar na vida, guarda os mandamentos. Perguntou-lhe ele: Quais? Respondeu Jesus: Não matarás; não adulterarás; não furtarás; não dirás falso testemunho; honra a teu pai e a tua mãe; e amarás o teu próximo como a ti mesmo. Disse-lhe o jovem: Tudo isso tenho guardado; que me falta ainda? Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, segue-me. Mas o jovem, ouvindo essa palavra, retirou-se triste; porque possuía muitos bens. Mateus 19. 16.22

A narrativa acima estampa o questionamento existente nos corações de muitas pessoas, “o que fazer para ganhar a vida eterna?” A mesma narrativa se encontra também no capitulo 10, 17 a 22 do Evangelho de Marcos, porém com pequenas diferenças. Dentre essas sutis diferenças, na narração mateana destaca-se na pergunta do jovem rico a seguinte citação: o que eu farei de bem, para herdar a vida eterna? Em algumas versões como a Almeida Revista e Atualizada, lemos: o que eu farei de bom, ao invés de bem. Na narrativa de Marcos, a pergunta é: Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna? Nela o interpelador é classificado como sendo um homem e não um jovem. E Jesus cita alguns dos mandamentos. Vejamos o episódio segundo a narrativa de Marcos.

E, pondo-se a caminho, correu para ele um homem, o qual se ajoelhou diante dele, e lhe perguntou: Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna?

E Jesus lhe disse: Por que me chamas bom? Ninguém há bom senão um, que é Deus.

Tu sabes os mandamentos: Não adulterarás; não matarás; não furtarás; não dirás falso testemunho; não defraudarás alguém; honra a teu pai e a tua mãe.

Ele, porém, respondendo, lhe disse: Mestre, tudo isso guardei desde a minha mocidade.

Jesus, olhando para ele, o amou e lhe disse: Falta-te uma coisa: vai, vende tudo quanto tens, e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, toma a cruz, e segue-me.

Mas ele, pesaroso desta palavra, retirou-se triste; porque possuía muitas propriedades.

Vamos aqui trabalhar com ambas as narrativas, embora darei preferencia ao termo “jovem” como aparece no final da narrativa de Mateus. Só a título de esclarecimento, comento que a passagem em Lucas Cap 18, se aproxima mais da narrativa de Mateus. E na Bíblia de Genebra, traz no lugar de Jovem a expressão “homem de posição”, Já na TEB – Tradução Ecumênica da Bíblia, o termo usado é “um notavel”. O que ambas as traduções dão a entender na narrativa lucana é que o inquiridor de Jesus era de fato alguém de destaque na sociedade judaíca. O que há de comum nos sinóticos é que todas as narrativa estampam o questionamento existente no coração daquele jovem: “O que fazer para ganhar a vida eterna?”

Refletindo sobre os textos supracitados notei que, aquele jovem abastado, possuía muitas coisas em comum com pessoas religiosas da atualidade. Dentre tais semelhanças, a meu ver, além do apego aos bens materiais, as mais flagrantes são: Incerteza da salvação e incompreensão da graça de Deus.

Apesar de ser uma pessoa que diligentemente observava os mandamentos citados por Jesus, no coração daquele jovem que desde cedo aprendera o bê-á-bá da religião judaica, existia uma pergunta que não calava: “que destino terá minha alma ao findar o labor dessa vida?”

A dúvida quanto à salvação era a força motriz dos atos daquele jovem, todas as ações dele emanavam do medo de não ser salvo, isso o deixava em constante crise movendo-o numa busca doentia pela perfeição. Tal busca pela perfeição fazia com que se destacasse sobremaneira dentre os de sua idade, superando a todos, pois tudo fazia com primazia, tornando-se assim o mais zeloso discípulos dos fariseus. Seus mestres orgulhosos por sua disciplinada observância da Lei em todos os seus pormenores, sempre o elogiavam, colocando-o como exemplo a ser seguido pelos demais jovens discípulos.

Tal status tornou-se para o jovem fariseu um laço, pois o que seus mestres e amigos não sabiam é que ele vivia numa crise profunda. Dentro dele existiam dúvidas sobre se era ou não membro do Povo eleito de Deus e se herdaria ou não a vida eterna. Cheio de conflitos internos, muitas vezes desejou levantar a mão na sinagoga e abrir seu coração, mas tinha vergonha de fazê-lo. Queria se abrir, mas temia expor-se, afinal era um jovem de destaque na sociedade farisaica, filho de rabino, como poderia titubear em questão de tamanha importância no campo da fé?

Sua precoce e perfeita observância dos mandamentos, fez com que ele se tornasse líder da MOFAJ. Mocidade Farisaica Judeiana. Ocupar tal posição, o angustiava mais ainda, afinal era um líder e não podia deixar transparecer dúvidas, pois precisava demonstrar para a juventude da Judéia que sua observância dos pormenores da religião se baseava na certeza de que já estava trilhando o caminho da salvação e não que ainda estava tentando encontrá-lo. Não podia manifestar suas dúvidas, pois seu pai o rabino Faleg, Al, ismo, com quem aprendera desde cedo a observar a Lei, esperava um dia tê-lo sucedendo-o na condução da sinagoga.

Diante do status social, da responsabilidade como líder da MOFAJ e das expectativas ministeriais do pai, expor sua insegurança no tocante à salvação seria desonrá-lo, portanto a solução era se calar e caminhar, pois fazer diferente disso tornando público seus temores e inseguranças seria pecar contra um dos mandamentos que mais primava em observar: honrar pai e mãe.

Por se destacar diante dos de sua idade no tocante ao conhecimento e observância da Lei, fora convocado pelos fariseus veteranos, para juntamente com eles colocarem Jesus a prova. Os mestres foram primeiro, e ele decidiu ficar ao longe, entre a multidão, assistindo como seus professores agiam. Contudo, ao ver como Jesus desmontou os estratagemas deles, ao tentarem fazê-lo negar a Lei de Moisés com a questão do divórcio, pela primeira vez, passou-lhe pela cabeça, que muitas das coisas que aprendera e observara desde sua infância, poderia não ser como realmente lhe ensinaram. A maneira como seus mestres foram silenciados por Jesus, o rabino marginal de Nazaré, no tocante a indissolubilidade do matrimônio e a razão da liberação do divórcio por Moisés, levou-o, a perceber que seus mestres não possuíam sólidos conhecimentos de ensinos rudimentares da Torá.

Ao ver seus mentores saindo derrotados mais uma vez pelas palavras de sabedoria que vinham da boca do humilde carpinteiro, o jovem rico sentiu que aquele era o momento. Ele então tomou coragem, se aproximou e perguntou: – Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna?

Respondeu-lhe Jesus: – Por que me perguntas sobre o que é bom? Um só é bom. Ao responder assim, já de inicio o Mestre desmonta um dos falsos conceitos sobre os quais o jovem se firmara, declarando-lhe que ninguém é bom se não Deus. Aquele de quem procede toda bondade, diante do qual a justiça humana é um trapo de imundície. Na narrativa de Marcos, Jesus reagiu respondendo-lhe: – Por que me chamas bom? Ninguém há bom senão um, que é Deus.

Fica claro nas palavras de Jesus, a resposta no tocante a conseguir a salvação. Ela é dada por Deus, pois sendo Ele Bom, a salvação só poderia ser fruto de um ato gratuito dEle, independente da ação humana (Ef. 28). A salvação é uma dádiva fruto da perfeita obra consumada por Cristo no Calvário. No tocante a ela podemos acolher o que diz Tiago: “Toda boa dádiva e todo dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das Luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação.” – Tiago 1: 17.

O jovem não respondeu a indagação de Jesus, sobre o porquê lhe chamara de bom mestre, pois o que ele aguardava ansiosamente era a resposta sobre como obter a salvação. Mas, inteligente e sofismático como aprendera a ser com seus mestres fariseus, chamar Jesus de “bom mestre”, foi apenas uma introdução para em seguida perguntar: – … Que farei para herdar a vida eterna? (Mc 10. 17) E Jesus, que sempre levava seus interlocutores a pensarem, segundo a narrativa de Marcos, responde a pergunta com outra pergunta:- Sabes os mandamentos?

Diante de tal pergunta, o jovem, sentiu-se seguro no caminho que trilhava, afinal, não só sabia os mandamentos, mas desde a sua infância os observava meticulosamente, tendo-os aprendido desde cedo com seus pais. Além de ter aprendido em casa, ele se aperfeiçoou com os rabinos, dentre eles Nicodemos, um dos mestres em Israel.
Contudo, sua segurança durou pouco. Pois, assim, como ele usou de uma introdução com Jesus, para chegar ao âmago de sua questão, Jesus também perguntou introdutoriamente, prolongando o diálogo, para só então responder o que realmente lhe era preciso para alcançar a salvação.

Outro diferencial entre as narrativas de Marcos e de Mateus, é que segundo Marcos, diante da resposta do jovem discípulo de fariseu, Jesus fitando-o, o amou.
Jesus ao fitar e amar aquele jovem viu seu ser possuído pelas posses, e enxergou nele um vazio da graça. Jesus viu o espírito daquele jovem acorrentado em “correntes de ouro”, que lhe cativavam a alma. Diante do cativeiro interno do “pobre jovem rico”, o Mestre decide então levá-lo a uma auto – libertação, indo direto na cadeia – mor que o acorrentava. Olhando fixamente para Ele, sentencia: – Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, segue-me.

A declaração de Jesus, penetrou os ouvidos e a alma do jovem discípulo de fariseu. Ela ecoou em seu espírito, fazendo tremer toda a estrutura de seu ser, pois nela veio não só a resposta de como obter a salvação, mas a perfeição verdadeira tal qual buscava ao observar rigorosamente a Lei. Ao se submeter, praticar e ensinar todos os ritos e mandamentos de sua religião, ele passava a falsa idéia de perfeição. Mas, só quando estava só é que sabia o quanto era imperfeito e quanto se angustiava para manter a aparência de ser o que não era e de tentar dar o que não tinha.

Porém, as palavras: vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, segue-me; petrificou-lhe a alma, deixando – o emudecido, pois significavam renunciar a seus muitos bens materiais e também a seus pormenores religiosos aprendidos e exercitados desde a mais tenra idade.
Ficou claro também que, a salvação não resultava de obedecer aos mandamentos como zelosamente fazia, mas sim de despojadamente seguir a Cristo, liberto do materialismo. A condição era abrir mão de sua confiança depositada na Lei, seguindo a um homem que comia e bebia com pessoas consideradas imundas. Homem este que era um humilde filho de carpinteiro, a quem seus mestres haviam chamado de: obreiro de Belzebu o maioral dos demônios, glutão e beberrão de vinho, amigo dos publicanos e pecadores. (Mt 12, 24 e 11. 19)

A situação era tensa, o momento era crucial. O silêncio tomava conta do lugar. Ele suava frio, as pessoas que o conheciam esperavam uma resposta. Diante dele estava o que almejava, mas não da maneira que esperava. Pois, para se apossar da vida eterna e da perfeição ele precisava antes desfazer-se daquilo que lhe possuía, a riqueza. Sim, a decisão era difícil, pois não era o homem que possuía os bens, mais os bens que possuíam ao homem. O coração daquele jovem rico estava firmado sobre suas riquezas. Uma luta entre o “ter” e o “ser” se travava no interior do jovem discípulo de fariseu. Tal batalha era no sentido de decidir entre ter os bens materiais e continuar angustiado pela incerteza da salvação pessoal ou ser capaz de desapegar-se deles e se tornar servo e dependente de Cristo.

Porém, o “ter” subjugou o “ser”, o material triunfou sobre o espiritual. Pois, o jovem usando de sua liberdade de escolha, diante da proposta de Cristo, optou em continuar vazio do espiritual, preso a seus rituais e cheio de bens materiais. Disse não a Graça personificada em Jesus de Nazaré, escolhendo virar as costas para Deus e continuar servindo as riquezas.

Ele não foi capaz de tomar uma atitude tal qual tomou Francisco de Assis, o qual compreendeu que é: “dando que se recebe e que somente morrendo para os bens deste mundo, se é possível viver para a vida eterna. O jovem rico, Francisco de Assis ao entender que no servir a Cristo, há riquezas maiores do que as materiais ao ser confrontado pela graça abriu mão de sua herança indo viver entre e para os pobres.

O jovem rico precisava ter lido o que nos ensina Tomás de Kempis em seu livro: A Imitação de Cristo: “Procura, pois desapegar teu coração das coisas visíveis, porque os que seguem os atrativos dos sentidos, mancham sua consciência e perdem a graça de Deus.”

Ele poderia ter agido assim como João Wesley, que após um ministério abençoado, ganhando o máximo possível, economizando e doando o máximo possível, morreu pobre deixando “uma grande estante cheia de bons livros, uma toga pastoral bastante usada, um nome escarnecido, e a imensa família metodista espalhada pela Inglaterra e diversas partes do mundo. João Wesley morreu desprovido de bens matérias, mas locupleto de tesouros nos céus. Sem procurar ficar rico, acabou ficando, mesmo já seguindo a Cristo, foi capaz de aceitar o desafio feito ao jovem rico. Sobre isso declarou: “Alguns livros alcançaram venda superior as minhas expectativas, e com ela fiquei rico sem querer. mas nunca quis ser rico, nem me empenhei por isso. Como tal fortuna, porém, veio-me inesperadamente, não cumulo riquezas sobre a terra, nem entesouro absolutamente nada para mim. Meu desejo e propósito são distribuir de graça o saldo do fim do ano… minhas próprias mãos executarão a distribuição dos meus bens”.

E para que ninguém diga que não citei a Bíblia, digo que o jovem rico se tivesse aceitado a proposta de Cristo, poderia ter sido um exemplo para Saulo, outro zeloso jovem fariseu que mais tarde se encontrou com Jesus no caminho de Damasco. Ao ser encontrado e confrontado pela graça no caminho, abandonou a rígida observância da Lei para seguir a Cristo, tornando-se o apóstolo dos gentios, ensinando aos discípulos de Corinto, que no ato gratuito de dar reside uma justiça eterna. Sim, o antigo discípulo de Gamaliel, um dos mais ferrenhos observadores do judaísmo farisaico, tornou-se o arauto da graça, passando a chamar-se Paulo, e por ter compreendido o valor do desapego declarou: Distribuiu, deu aos pobres, a sua justiça permanece para sempre. (2. Cor 2.9).

O jovem poderia ter aprendido com o próprio Jesus de Nazaré que disse: “Dai, e ser-vos-á dado; boa medida, recalcada, sacudida e transbordando, vos deitarão no vosso regaço; porque com a mesma medida com que medirdes também vos medirão de novo.” (Lc 6. 38)

Apesar das pequenas divergências entre Mateus, Marcos e Lucas, na narrativa do diálogo de Jesus com o jovem rico, os sinóticos concordam que o jovem optou em agir diferente de Paulo, de Francisco e de Wesley. Diante da proposta de Jesus ele, retirou-se triste; porque possuía muitos bens. Retirou-se e seguiu seu caminho, possuído pelas posses, apegado a elas, e elas, apegadas a ele. Embrenhou-se na multidão, calado, em silêncio, contudo, a pergunta angustiante que se recusava a calar no interior dele já não era: o que fazer para conseguir a salvação? Mas sim: como se libertar daquilo que lhe privava da salvação? O que lhe privava de ser perfeito e salvo não eram os bens em si, mas seu desordenado amor e apego a eles.

Paulo diz que, o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males, e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores (I Tm 6. 10 ). O jovem rico sumiu em meio à multidão virando as costas para Jesus. Seguiu rico materialmente, mas miserável no tocante a eternidade, pois não teve coragem e tampouco fé para desapegar-se dos bens transitórios. “Partiu vazio da graça, sem se dar conta que o que recusou foram coisas eternas que, Olho nenhum viu, ouvido nenhum ouviu, mente nenhuma imaginou o que Deus preparou para aqueles que o amam.”
1 Cor 2:9

Muita gente, desde clérigos a leigos, dentro das igrejas cristãs estão possuídas por suas posses. Tais pessoas precisam de libertação. E, esta libertação não poderá ser feita por outra pessoa, pois o exorcismo dos bens materiais que possuem a alguém, não pode ser feito por outro, senão pelo próprio possuído, que numa decisão entre o material e o espiritual, o efêmero e o eterno, usando de seu livre arbítrio, tocado pela graça, deve diferentemente do jovem rico agir assim como Zaqueu, que ao receber Jesus disse: “ Senhor, resolvo dar aos pobres a metade de meus bens; e, se nalguma coisa tenho defraudado alguém,restituo quatro vezes mais.” (Lc 19.8).

Será que, depois dar cinqüenta por cento dos seus bens aos pobres e usar o restante para restituir quatro vezes mais a quem defraudará, teria sobrado alguma coisa para Zaqueu? Creio que não. Penso que ele se tornou pobre dos bens que desonestamente acumulara, mas rico em tesouros nos céus, pois escolheu o bem que não perece, o qual é a salvação, escolheu a melhor parte que não lhe foi tirada.

A libertação da possessão das posses, só pode ser efetuada mediante uma auto-libertação, que ocorre diante da proposta de Jesus, que disse: Não podereis servir a Deus e a mamom. (Mt. 6.24). O exorcismo dos bens materiais se for feito por outro é roubo, mas se for feito por quem é por ele possuído é renuncia cristã. Renuncia firmada na pobreza evangélica baseada no servir a Cristo usando dos bens materiais sem ser possuído e usado por eles.

Cristo propõe o desapego material a quem almeja segui-lo. E dando segurança a quem pela fé nEle e em sua providência aceita se auto-libertar, declara: Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou com que nos vestiremos? (Porque todas estas coisas os gentios procuram). De certo vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas estas coisas; Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Não vos inquieteis, pois, pelo dia amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal. (Mt. 6. 31 a 34)

CONCLUSÃO

Ao concluir este artigo/estudo é importante frisar que, para Jesus, o mal não estava e nem está em possuir bens, mas sim em ser possuído por eles. A prisão não esta em “ter”, mas em ser preso ao que se tem. Aquele jovem estava possuído pelas posses que pensava ter. Ele não possuía as posses, mas as posses o possuíam. Ele não tinha as coisas, antes, elas o tinham. Por isso não foi capaz de escolher a melhor parte que jamais lhe seria tirada, os tesouros nos céus.

Tiago diz em sua epistola: A religião pura e imaculada para com Deus, o Pai, é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo. Ser religião pura e sem mácula é ser religião perfeita, gozando da perfeição que o jovem rico não quis abraçar por estar possuído por suas riquezas. Ele recusou a perfeição, porque sua obtenção requer de quem a busca verdadeiramente: despojamento, desapego, renúncia a tudo aquilo que fora de Cristo se torna segurança.

Nestes tempos em que outro “Evangelho” anuncia mais o “ter” do que o “ser” e coloca a pobreza como sinal de falta de fé, ou resultante do estar em pecado ou sob maldição divina, e se reivindica para os pseudos – sacerdotes as primícias assim como se fazia no já caduco sacerdócio araônico, é preciso que os verdadeiros cristãos tenham cuidado.

É preciso vigilância, pois Jesus o atual e eterno sacerdote disse em sua Palavra, que, devemos dar aos pobres para que então possuamos um tesouro nos céus e não aos abastados pregadores da prosperidade para que tenhamos bens na terra. Seduzidos por tais ensinos, muitas pessoas apegadas às riquezas que já possuem, buscando mais ainda, ou tentando adquiri-las, estão deixando de dar aos pobres, acumulando assim tesouros na terra, mas perdendo os céus. Alguns prosseguem possuídos pelas posses, mas vazios da Graça.

Pr. José do Carmo da Silva. (Zé do Egito)
Igreja Metodista em Fátima do Sul – MS.

comentários

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s