Tereré com Graça.

Publicado: 14/04/2009 em Artigos, Cronicas Cristãs
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E, o Verbo se fez carne habitou entre nós… (Jo 14a) O “Tereré” é uma bebida típica aqui do Mato Grosso do Sul, semelhante ao fervente chimarrão do Rio Grande do Sul, apreciado pelos gaúchos, prepara-se o Tereré, também com erva, porém sua erva é mais grossa do que a do chimarrão gaúcho, devendo ser servido com água bem gelada. O Tereré é uma bebida saborosa, contudo, todos que a apreciam, sabem bem que, ela realmente se torna mais aprazível, quando dois ou três estão reunidos. Pode-se até tomar sozinho, mas não é igual, pois o que agrega prazer ao Tereré são as pessoas presentes e o bate-papo que flui naturalmente. Tendo pessoas, basta uma jarra de água bem gelada, na qual alguns adicionam limão, uma cuia ou um copo, uma boa erva, e alguém disposto a servir. Faz-se uma rodinha, puxa-se um assunto, e partilha-se a vida e o Tereré.

Aqui em nossa Igreja Metodista na Escola Dominical, nos dias de muito calor, enquanto estudamos a lição, corre entre nós uma cuia de Tereré bem geladinho. Fico impressionado com a capacidade que essa bebida tem de gerar integração, fazendo com que nossas aulas se tornem verdadeiros momentos de: “Tereré com graça”. João em seu Evangelho, fala que, o Verbo se fez carne e habitou entre nós, ou seja, a Divindade se fez pessoa humana, passando a viver entre o gênero humano, assumindo todas as suas características, segundo o escritor da carta aos Hebreus menos no pecado (Hebreus 4).

Penso que, quando o Verbo preexistente de Deus, se encarnou em Jesus de Nazaré, certamente soube como ninguém, a apreciar as coisas boas da vida, dentre as quais abaixo citarei algumas:

1- Os amigos. Como Lázaro, Maria e Marta, na casa de quem ia com frequencia. Jesus tinha uma grande amizade com essa família. Tenho a impressão que os bate-papos deles sempre se davam na cozinha, e que Marta estava brava com Maria, por que estava lavando a louça sozinha, após uma boa refeição, (Lc 10.38; Jo 12.2).

2 – Uma boa festa. Como as das Bodas de Caná na Galiléia (Jo 2.1).

Javé, é um Deus de festa, isso se evidencia em muitas passagens do Antigo Testamento, vemos que tudo era motivo para a festa, a dos pães azímos, é um exemplo dessa característica festiva de Deus, a qual transmitiu a seu povo (Ez 12. 17; 23. 14). No Novo Testamento, agindo como um bom Filho do Pai, Jesus sempre fala de festas, júbilos e banquetes nas suas parábolas, a parábola da “grande ceia” ele proferiu quando estava comendo na casa de um dos principais farizeus (Lc 14.15). Falou que tem até festa no céu quando alguém se converte. Na parábola do filho pródigo, ele disse que o pai fez uma festa, onde tinha comida, músicas e danças. (Lc 15.11) Se a parábola do filho pródigo ilustra a festa que Deus faz quando um pecador se arrepende, então lá no céu tem, comida, músicas e danças, tem alguns crentes que vão ter dificuldade em passar a eternidade lá.

Se aqui na terra estas coisas já são boas, imaginem lá no céu então?

3 – Um almoço na casa dos amigos. Jesus não dispensava uma “boca livre”, sempre estava comendo na casa de alguém. Às vezes até se oferecia para almoçar na casa dos outros, como no caso de Zaqueu o publicano (Lc 19. 2,10). A conversão de Levi foi comemorada com um bom almoço e lá Jesus estava à mesa (Marcos 2. 15). Na casa de Pedro, após ter curado a sogra do pescador, foram todos para a mesa degustarem certamente um bom peixe frito ou assado, servido pela sogra de Pedro. (Mc 1.29, 31). Por se fazer sempre presente as mesas, das mais humildes as mais requintadas, seus adversários chegaram até mesmo a chamá-lo de comilão (Mc 11,19; Lc 7, 34), o que é sinal que não comia pouco. (talvez isso explique a razão de quase sempre pastores serem bons de garfo, quesito no qual imitam bem o Mestre).

Quando ressuscitou, aguardava os discípulos na praia com um bom churrasquinho de peixe acompanhado com pão. (João 21.9). Quando aparece para eles, dá prova que não é um fantasma, pedindo que lhe toquem e vejam as marcas nas mãos, mas, a prova inconteste de que era Ele mesmo, veio quando pergunta: “Tendes aqui alguma coisa que comer?” E os discípulos logo lhe trouxeram peixe assado e um favo de mel, e Ele comeu na presença deles (Lc 24. 40, 43) Após essas demonstrações os discípulos não tiveram mais dúvidas nenhuma.

4 – Um bom bate-papo. Como o que Ele levou com a samaritana no poço de Jacó. (Jo 4) e com os discípulos no caminho de Emaús. (Lc 24.13).

Era um bom de prosa, a ponto de Nicodemos sair na calada da noite para conversar com Ele, sem ter tido que marcar hora com antecedência. (Jo 3). É verdade, que às vezes falava coisas enigmáticas, mas geralmente seus assuntos eram recheados de coisas simples do cotidiano, assim como: feno, pão, vinho, semente, peixes, cisco, fermento, sal, lírios, passarinhos… Foi olhando para o exemplo Dele, que João Wesley disse: “prego de uma forma simples para o povo simples.”

Não escolhia com quem conversar e se relacionar, deixando isso bem claro a todos, dizendo: os que vierem a mim, de maneira nenhuma eu os lançarei fora (Jo 6.37), e para se fazer presente não exigia um auditório cheio, disse que bastava dois ou três (Mt. 18,20). Jesus era homem do povo, e por assim viver foi acusado pelos religiosos de ser: amigos de publicanos e pecadores (Lc 7.34)

5- Uma boa pescaria. Jesus, embora fosse filho de carpinteiro, gostava de pescar, e com Ele não tinha pesca frustrada, pois sabia exatamente onde os peixes estavam, (Jo 20.21).

E o melhor de todas supracitadas coisas boas da vida que Jesus soube desfrutar, é que ele mantinha uma constante comunhão com o Pai. Constantemente ele orava. (Mt.14, 23; Mc.1,35; Lc.6,12.)

Mantinha sua vida espiritual fervorosamente, porém, não agia como um alienado, se fechando dentro de um gueto religioso, limitando-se aquilo que considerava espaço sagrado, fugindo do contato com o povo, como se estes estivessem num espaço profano. Jesus apesar de sua curta existência como homem, foi o individuo, mais feliz que já passou por este planeta, literalmente ele soube como ninguém: “viver e não ter a vergonha de ser feliz”, pois soube viver no mundo, sem ser mundano. Jesus de Nazaré transmitia paz, irradiava alegria e esperança, pois uma pessoa melancólica, tristonha não atrairia tanta gente, a ponto de sua presença e palavras fazerem com que os mais corruptos dos corações se quebrantassem, como o de Zaqueu e da samaritana no poço de Jacó. Mesmo quando calado seu silencio atingia as almas daqueles que Dele esperavam ouvir algo, gerando admiração como ocorrera a Pilatos. (Mt 27. 14)

Ele não desprezou o mundo, mas sim os valores errados e pecaminosos de seu sistema que jaz no maligno, pois tinha a clara consciência de que Sua missão e de sua Igreja têm no mundo palco de atuação, por isso orou em favor de seus discípulos de todos os tempos, clamando a Deus: “Não peço que os tire do mundo, mas sim que os guarde do mal”. Ele sabia que, se Ele, bem como seus discipulos não construíssem relacionamentos com os de fora, não poderia trazê-los para dentro do Reino de Deus, da mesma forma se a Igreja não se relacionar-se com os de fora dela, não poderá influenciá-los e trazê-los para seu meio.

Como vimos, Jesus gostava das coisas boas da vida, tais como: amizade, comida,churrasco, bate-papo, pescaria, e acima de tudo comunhão com Deus, penso que, logicamente se naquela época já existisse, certamente Ele apreciaria um bom Tereré.

Quero convidá-lo, amigo/a leitor/a para voltando dois mil anos no tempo, juntos imaginarmos um dia na vida de Jesus e os discípulos. O sol esta escaldante, pois é pleno meio dia, depois de terem realizados muitas curas e libertações, após ter despedido as multidões, todos tomados pelo cansaço, de pé a beira do mar da Galiléia, um dos discípulos diz a Jesus:

Mestre, que calor escaldante, faça alguma coisa ou vamos todos perecer!

Jesus, respondeu – Também tenho sede. O que querem que eu vos faça?

Bartolomeu sugeriu: – Que tal um Tereré? Jesus, pergunta: – O que tens?

Filipe, responde: – Uma cuia feita com um pedaço de shofar, mas de onde virá a erva e a bomba?

Jesus, fitando Filipe nos olhos diz: – Tudo é possível ao que crê.

Tadeu interveio: – Para Deus, não existe nada impossível, pois pode trazer à existência as coisas que não existem.

João, o discípulo amado acrescenta: – Falta também água gelada, pois a água do mar esta quente.

Jesus, curvando-se a margem do mar recolhe um pouco da água em seu odre, e pondo-se de pé, elevando-o aos céus faz uma oração.

Tiago, pergunta: – O que ele esta fazendo?

André, responde: – Parece que vai transformar a água quente em água gelada.

Tomé, diz: – Se eu não pegar essa cuia nas mãos, e não puser o dedo num pouquinho desta água pra ver se está gelada mesmo, de modo nenhum acreditarei.

Mateus, pergunta a Tomé: – Qual é mais difícil, transformar água em vinho, como ele fez lá no casamento, ou fazer que água quente se torne gelada?

Simão o Zelote, afirmou: – Como não poderia ele, fazer esse prodígio, uma vez que multiplicou até pães e peixes? Para o Mestre nada é impossível.

Jesus, mandando que os discípulos se assentassem sobre a relva, após ter dado graças, pegou o odre e a bomba, dando a seus discípulos disse: – Aquele que quiser ser o maior entre vós seja aquele que sirva. Nessa hora a disputa foi acirrada entre Tiago, João e Simão Pedro, discípulos que sempre discorriam sobre quem seria o maior entre o grupo. (Mc 10. 35, 43). Porém, Simão Pedro acabou ganhando a disputa, passando a servir o Tereré.

Judas Iscariote, que nunca tinha tomado Tereré, tomando e gostando disse admirado: – Que bebida gostosa! Poderia vender por um bom preço, e dar o dinheiro aos pobres.

E, ali, naqueles momentos de comunhão, Jesus ensinava aos discípulos, pois uma roda de Tereré é uma roda de partilha.

Assim como Jesus, devemos aproveitar as coisas boas da vida, como amigos, um bom almoço, um alegre e edificante bate-papo, uma boa pesca, e logicamente um Tereré bem geladinho, pois essas coisas nos possibilitam a comunhão fortalecendo o relacionamento e amor ao próximo. Mas acima de tudo isso, visando isso tudo, deve estar a nossa comunhão com DEUS.

Conclusão.

Este artigo não tem pretensão de converter ninguém, mas sim mostrar que, Deus não nos pede que neguemos nossa humanidade, vivendo de forma isolada e triste, considerando a tudo pecado e a todos fora da igreja pecadores de mais, de forma que vamos nos contaminar se nos relacionarmos com eles, devendo o cristão se relacionar somente com quem é “salvo”. Penso que relacionamento não significa comunhão, e que a Bíblia condena a comunhão com o descrente, mas incentiva o relacionamento. Lamentavelmente tem pessoas que depois que se tornam cristãs, transforma-se em “tristãs”, pois vivem tristes, não sorriem, não cantam, não vão a festas, (só vão se ocorrer na igreja ou na casa de um crente), não falam mais com os vizinhos. Crentes assim, parecem que querem ser melhor do que Jesus, o qual foi chamado de amigo de publicanos e pecadores. Gente com essa mentalidade, quando levam um convidado a sua igreja, é sempre alguém de outra denominação que veio conhecer a igreja irmã.

Alguns, ainda tentam apoiarem seu comportamento na Bíblia, dizendo que nela esta escrito: “Jesus chorou, e não que Jesus sorriu”. Evocam ainda o salmo primeiro, interpretando-o de forma distorcida, dizendo: “não devemos sentar na roda dos escarnecedores antes o nosso prazer deve estar na Lei do Senhor, portanto não devemos ter amizade com descrentes”. Penso que, a Lei do Senhor no tempo da graça é esta: “Ide e fazei discípulos”, e o discipulado se faz em meio aos de fora da Igreja, se relacionando com eles, a fim de trazê-los para dentro. O contrario disso, e atuar como fermento e sal fora da massa, que não dá sabor e tampouco crescimento. É ser semelhante a uma luz acesa ao ar livre em pleno meio dia, não servindo para iluminar os que sem conhecer a Cristo vivem nas trevas. Deus em Jesus se fez humano em favor do ser humano decaído, a fim de levantá-lo. E na dependência do Pai, o Filho viveu plenamente sua humanidade, é exatamente o que o Pai espera de nós, que vivamos assim como seu Filho Jesus viveu nos relacionando com Ele e com o próximo.

Ufa! Escrever este artigo me deu uma sede… Que tal um Tereré com graça? Ta servido?

Pr. José do Carmo da Silva. [Pr. Zé do Egito]

Igreja Metodista em Fátima do Sul – MS

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