De sob a cruz para o pelourinho. A paixão do povo negro.

Publicado: 12/04/2009 em Teologia
Tags:, , , , ,

E constrangeram um certo Simão, cireneu, pai de Alexandre e de Rufo, que por ali passava, vindo do campo, a que levasse a cruz. (Mc 15.21)

Os Evangelhos de Marcos, Mateus e Lucas, conhecido como Sinóticos, falam de dois Simões que tiveram contato com Jesus Cristo. Eles falam de Simão Pedro, a quem Jesus chamou para ser seu discípulo, e fala de Simão de Cirene, ou Simão o Cireneu, o qual fora forçado pelos soldados romanos a carregar à cruz de Cristo. Simão Pedro era Judeu e pescador, Simão Cireneu era natural de Cirene, na África. Ele era um homem negro, o qual é chamado de Simão Níger (At 13.1), literalmente, Simão, o Negro.
As semelhanças entre os dois Simões, estão somente em seus nomes: Pois um sendo Judeu, possuía a pele mais clara, o outro sendo natural da África, possuía a tez negra. Um foi chamado por Jesus, para segui-lo, o outro foi forçado pelos romanos a andar sob a cruz de Cristo. Um foi encontrado a beira do mar da Galiléia, quando Jesus iniciava seu ministério, o outro se encontrou com o Mestre na via dolorosa, rumo a saída de Jerusalém, quando Jesus estava chegando ao final de seu ministério terreno. Ao encontrar-se com Simão, o negro, Jesus de Nazaré, já havia sido supliciado pelos soldados romanos, estava muito cansado e ensangüentado sob o peso da rude cruz. Os soldados que eram peritos em crucificação, certamente se deram conta que, se acaso outro não levasse a cruz, o condenado, não chegaria vivo ao alto do gólgota para cumprir sua sentença: morte de cruz.

Marcos narra que, Simão Cireneu quando voltava do campo, deparou-se com um cortejo sangrento, cuja atração principal era Jesus de Nazaré, que acusado de blasfêmia por parte de seus patrícios judeus, e por sedição por parte das autoridades romanas, ia levando sob seus ombros uma pesada cruz, rumo ao Gólgota, lugar onde Roma costumava executar os criminosos, pregando-os no madeiro, e ali os deixando seminus, dias e mais dias, a mercê do sol escaldante, insetos e aves, servindo de alerta para todos quantos tentassem insurgirem-se contra o Império.

Nesse momento da ignominiosa via crucis, que ia do pretório até o calvario, Simão o Judeu estava ausente, ou quem sabe acompanhava seu Mestre de longe em meio à multidão, com o coração cheio de remorso, pois covardemente o negara. Neste momento vem de encontro ao sanguinolento cortejo, outro Simão, Simão o negro, o qual talvez não tivesse tido contato com Jesus anteriormente, pois no momento que é abordado pelos soldados romanos, Marcos narra que, este vinha do campo, ou seja, ele não era um dos que estava na multidão, nem se escondendo e tampouco seguindo o ignominioso espetáculo. Porém, a verdade é que, esse encontro, transformou a vida de Simão, pois a partir daí, ele já não seria mais conhecido somente como: Simão o Cireneu, ou Simão o Niger, mas também como Simão o Discípulo. Simão o negro, foi aquele que, forçosamente literalmente carregou a cruz do Mestre, o qual cansado e combalido o seguia, mas que tocado pela graça, espontaneamente querendo ir após Cristo, negou-se a si mesmo, tomou sua cruz e seguiu o Mestre. Pois, Simão tornou-se membro da Igreja, com sua esposa e seus dois filhos, Alexandre e Rufo. Paulo faz referencia a família de Simão, se dirigindo de forma carinhosa a esposa de Simão, a quem considera sua mãe: “Saudai a Rufo, eleito no Senhor, e a sua mãe e minha” (Rm 16.13).

Poucos sabem da negritude de Simão, contudo, para nós negros cristãos, o fato de o homem que carregou a cruz de Cristo em seus últimos momentos de vida, ser um negro, é muito significativo. Penso que, o povo negro, de certa forma estava representado em Simão, e uniu se a Cristo em seus sofrimentos.
Esta passagem bíblica de Marcos 15. 21, se não passasse por um “embranquecimento”, ajudaria a auto-afirmação étnica, levando o povo negro a levantar a sua cabeça, se contrapondo a deturpada teologia escravista de Cam, a qual afirmava que Canaã, neto de Noé era negro. Digo ”embraquecimento”, pois a ideologia escravista, defendendo teologicamente seus interesses, nunca fez afirmação sobre a negritude de Simão Cireneu e sua participação na Paixão de Cristo e na Igreja Primitiva onde aparece como: Simão o Niger, (At 13.1), da mesma forma que afirmava a negritude dos descendentes de Cam.

No auge de sua Paixão, Cristo bradou, em favor de seus algozes: “Pai perdoe-lhes, pois não sabem o que estão fazendo”. Nós negros cristãos, em relação à escravidão negra, devemos e podemos declarar a primeira parte da supracitada oração intercessora de Cristo, porém, infelizmente, não podemos em relação à segunda parte falarmos como Jesus: “Eles não sabem o que estão fazendo”. Pois os cristãos escravistas sabiam sim o que faziam, e estavam bem embasados na sua interpretação bíblico-teológica. E se tivessem pensado nisso, teriam sido capazes até mesmo de usarem o fato de Simão o Cireneu, o negro ter participado da Paixão de Cristo, para justificar a escravidão, como o Padre Antonio Vieira, tanto fazia em seus sermões, onde comparava a escravidão a Paixão de Cristo, buscando fazer com que o negro escravo se acomodasse a sua ignominiosa situação;

Saibam pois os pretos, e não duvidem que a mesma Mãe de Deus é Mãe sua: Sciant ergo ipsam matrem: e saibam que com ser uma Senhora tão soberana, é Mãe tão amorosa, que assim pequenos como são, os ama, e tem por filhos. […] “… como todos os christãos, posto que fôssem gentios, e sejam escravos, pela fé e pelo batismo estão incorporados em Christo, e são membros de Christo” […] dar infinitas graças a Deus por vos ter dado conhecimento de si, e por vos ter tirado de vossas terras, onde vossos pais e vós vivêis como gentios; e vos ter trazido a esta, onde instruídos na fé, vivaes como christãos, e vos salveis. […] “Virá tempo, diz David, em que os Ethyopes (que sois vós) deixada a gentilidade e a idolatria, se hão-de ajoelhar diante do verdadeiro Deus” e “não baterão as palmas como costumam, mas fazendo oração, levantarão as mãos ao mesmo Deus” […] Cumpriram-se especialmente depois que os portuguezes conquistaram a Ethyopia occidental, e estão se cumprindo hoje mais e melhor que em nenhuma outra parte do mundo n’esta da America, aonde trazidos os mesmos Ethyopes em tão innumeravel numero, todos com os joelhos em terra, e com as mãos levantadas ao céo, crêem, confessam, e adoram no Rosario da Senhora todos os mysterios da Encarnação, Morte e Resurreição do Creador e Redemptor do mundo… “id est, imitatoribus in loco Calvariae crucifixi” […] (. “Não ha trabalho, nem genero de vida no mundo mais parecido á Cruz e Paixão de Christo, que o vosso em um d’estes engenhos” […]. E, se por acaso alguém pensar em usar esta situação como alavanca para conseguir um melhor tratamento, “Bem aventurados vós se soubereis conhecer a fortuna do vosso estado, e com a conformidade e imitação de tão alta e divina similhança aproveitar e santificar o trabalho!” […] “pode parecer desterro, captiveiro, e desgraça… não é senão milagre, e grande milagre”, “n’essa triste servidão de miseravel escravo tereis o que eu desejava sendo rei”, “mais inveja devem ter vossos senhores ás vossas penas, do que vós aos seus gostos, a que servis com tanto trabalho” [1]

A Paixão de Cristo durou algumas horas, a de nossos ancestrais durou quase quatro séculos, Jesus foi dependurado na cruz, o negro no pelourinho, Jesus foi chicoteado e pregado no madeiro, o negro foi chicoteado e agrilhoado no tronco. Jesus ressuscitou ao terceiro dia, nós estamos ressuscitando a cada dia no presente século, pois, cada negro que, se torna consciente de seu valor como pessoa humana, que, resgata sua alto- estima, valorizando seu ser e sua cultura, é um negro que deixa vazio o tumulo no qual a ideologia racista tenta nos manter mortos sob a pedra da inferioridade étnica, cultural e intelectual. O sangue do povo negro, derramado desde a África, tumbeiros, cafezais, canaviais e pelourinho, clama aos céus assim como o sangue de Abel, pois é o sangue de vários povos africanos, dentre os quais em relação a um deles Deus disse: ”Não sois vós para mim, ó filhos de Israel, como os filhos dos etíopes?’ Amós 9.7. Deus possuía e possui pelos povos negros o mesmo amor que o tinha e tem pelos judeus, porém a Igreja, em pleno período escravista via a estes povos como malditos, como abaixo vemos em um documento de 12-11-1873, expedido pela Secretária da Sagrada Congregação das Indulgências, Roma,

“Rezemos pelos povos muito miseráveis da áfrica Central que constituem a décima parte do gênero humano, para que Deus onipotente finalmente tire de seus corações a maldição de Cam e lhes dê a benção que só podem conseguir em Jesus Cristo, nosso Deus e Senhor: Senhor Jesus Cristo, único Salvador de todo gênero humano, que já reinais de amar a mar e do rio até os confins da terra, abre com benevolência o seu sacratíssimo coração mesmo às almas mui miseráveis da África que até agora encontram-se nas trevas e nas sombras da morte, para que pela intercessão da puríssima Virgem Maria, tua mãe imaculada, e de São José, tendo abandonado os ídolos, os etíopes de prostem diante de Ti e sejam agregados à tua santa Igreja” [2]

Se nós negros, realmente crêssemos na maldição de Cam, a qual serviu como base teológica para a escravidão negra, poderíamos a partir deste episódio de Simão Cireneu, criar uma teologia, a qual defendia que, o primeiro povo a ser remido pelo sangue de Jesus, fora o povo negro, representado em Simão o negro, pois aquela cruz, que ele carregou, estava toda ensangüentada pelo sangue do Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Poderíamos ainda teologizar que: “<i>Por meio de Cam, caiu a maldição sobre os negros e com ela a escravidão, mas por meio da ação de Simão Cireneu, o qual carregou a cruz de Cristo, ainda que forçado pelos homens, mas providenciado por Deus, veio à benção e com ela a liberdade ao povo negro.”</i>

Em Cristo, Deus derrubou a parede de separação entre os povos, portanto enquanto cristãos negros continuemos a refletir sobre as Escrituras, onde nossa etnia esta mais presente do que se possa pensar. Diferente do que fez a ideologia escravista, nós teólogos negros, devemos a luz da Bíblia Sagrada nos opor a toda forma de opressão e segregação, pois estamos resgatados pelo sangue Daquele a quem Simão Cireneu o Negro, ajudou a carregar a cruz. Estamos Nele seguros, feitos novas criaturas, e sobre nós já não pesa nenhuma condenação, estando Nele guardados, sendo Ele nossa libertação, fazendo parte de seu Corpo a Igreja verdadeira, a Assembléia dos Remidos onde não há grego, nem judeu, [negros ou brancos] circuncisão, nem incircuncisão, bárbaro, cita, servo ou livre; mas Cristo é tudo em todos.

Pr. José do Carmo da Silva. (Zé do Egito)
Igreja Metodista em Fátima do Sul – MS

1 – Revista Espaço Acadêmico: http://www.espacoacademico.com.br/036/36ebueno.htm.. Acesso em 26/07/2008.
2 – HOORNAERT. Eduardo. O negro e a Bíblia: Um clamor de Justiça. Ed. Vozes.Petropolis. 1988.p21.

comentários
  1. antonio jesus silva disse:

    REVOLUÇÃO QUILOMBOLIVARIANA !
    Viva! Chàvez! Viva Che!Viva! Simon Bolívar! Viva! Zumbi!
    Movimento Chàvista Brasileiro

    Manifesto em solidariedade, liberdade e desenvolvimento dos povos afro-ameríndio latinos, no dia 01 de maio dia do trabalhador foi lançado o manifesto da Revolução Quilombolivariana fruto de inúmeras discussões que questionavam a situação dos negros, índios da América Latina, que apesar de estarmos no 3º milênio em pleno avanço tecnológico, o nosso coletivo se encontra a margem e marginalizados de todos de todos os benefícios da sociedade capitalista euro-americano, que em pese que esse grupo de países a pirâmide do topo da sociedade mundial e que ditam o que e certo e o que é errado, determinando as linhas de comportamento dos povos comandando pelo imperialismo norte-americano, que decide quem é do bem e quem do mal, quem é aliado e quem é inimigo, sendo que essas diretrizes da colonização do 3º Mundo, Ásia, África e em nosso caso América Latina, tendo como exemplo o nosso Brasil, que alias é uma força de expressão, pois quem nos domina é a elite associada à elite mundial é de conhecimento que no Brasil que hoje nos temos mais de 30 bilionários, sendo que a alguns destes dessas fortunas foram formadas como um passe de mágica em menos de trinta anos, e até casos de em menos de 10 anos, sendo que algumas dessas fortunas vieram do tempo da escravidão, e outras pessoas que fugidas do nazismo que vieram para cá sem nada, e hoje são donos deste país, ocupando posições estratégicas na sociedade civil e pública, tomando para si todos os canais de comunicação uma das mais perversas mediáticas do Mundo. A exclusão dos negros e a usurpação das terras indígenas criaram-se mais e 100 milhões de brasileiros sendo estes afro-ameríndios descendentes vivendo num patamar de escravidão, vivendo no desemprego e no subemprego com um dos piores salários mínimos do Mundo, e milhões vivendo abaixo da linha de pobreza, sendo as maiores vitimas da violência social, o sucateamento da saúde publica e o péssimo sistema de ensino, onde milhões de alunos tem dificuldades de uma simples soma ou leitura, dando argumentos demagógicos de sustentação a vários políticos que o problema do Brasil e a educação, sendo que na realidade o problema do Brasil são as péssimas condições de vida das dezenas de milhões dos excluídos e alienados pelo sistema capitalista oligárquico que faz da elite do Brasil tão poderosa quantos as do 1º Mundo. É inadmissível o salário dos professores, dos assistentes de saúde, até mesmo da policia e os trabalhadores de uma forma geral, vemos o surrealismo de dezenas de salários pagos pelos sistemas de televisão Globo, SBT e outros aos seus artistas, jornalistas, apresentadores e diretores e etc.
    Manifesto da Revolução Quilombolivariana vem ocupar os nossos direito e anseios com os movimentos negros afro-ameríndios e simpatizantes para a grande tomada da conscientização que este país e os países irmãos não podem mais viver no inferno, sustentando o paraíso da elite dominante este manifesto Quilombolivariano é a unificação e redenção dos ideais do grande líder zumbi do Quilombo dos Palmares a 1º Republica feita por negros e índios iguais, sentimento este do grande líder libertador e construí dor Simon Bolívar que em sua luta de liberdade e justiça das Américas se tornou um mártir vivo dentro desses ideais e princípios vamos lutar pelos nossos direitos e resgatar a história dos nossos heróis mártires como Che Guevara, o Gigante Osvaldão líder da Guerrilha do Araguaia. São dezenas de histórias que o Imperialismo e Ditadura esconderam. Há mais de 160 anos houve o Massacre de Porongos os lanceiros negros da Farroupilha o que aconteceu com as mulheres da praça de 1º de maio? O que aconteceu com diversos povos indígenas da nossa América Latina, o que aconteceu com tantos homens e mulheres que foram martirizados, por desejarem liberdade e justiça? Existem muitas barreiras uma ocultas e outras declaradamente que nos excluem dos conhecimentos gerais infelizmente o negro brasileiro não conhece a riqueza cultural social de um irmão Colombiano, Uruguaio, Venezuelano, Argentino, Porto-Riquenho ou Cubano. Há uma presença física e espiritual em nossa história os mesmos que nos cerceiam de nossos valores são os mesmos que atacam os estadistas Hugo Chávez e Evo Morales Ayma,Rafael Correa, Fernando Lugo não admitem que esses lideres de origem nativa e afro-descendente busquem e tomem a autonomia para seus iguais, são esses mesmos que no discriminam e que nos oprime de nossa liberdade de nossas expressões que não seculares, e sim milenares. Neste 1º de maio de diversas capitais e centenas de cidades e milhares de pessoas em sua maioria jovem afro-ameríndio descendente e simpatizante leram o manifesto Revolução Quilombolivariana e bradaram Viva a,Viva Simon Bolívar Viva Zumbi, Viva Che, Viva Martin Luther King, Viva Osvaldão, Viva Mandela, Viva Chávez, Viva Evo Ayma, Viva a União dos Povos Latinos afro-ameríndios, Viva 1º de maio, Viva os Trabalhadores e Trabalhadoras dos Brasil e de todos os povos irmanados.
    O.N.N.QUILOMBO –FUNDAÇÃO 20/11/1970
    quilombonnq@bol.com.br

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s