“Um Deus e multiplos nomes”

Publicado: 04/08/2008 em Cronicas Cristãs, Teologia
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Penso que a força de um povo para continuar lutando contra a dominação, o preconceito e a discriminação étnica, está ligada a sua fé, por mais que ao outro ela pareça estranha. A fé é elemento que concede ao individuo, e a sociedade, forças subjetivas, para ter e alcançar objetivos. A fé no etéreo, no transcendente, possibilita, ao homem vencer as vicissitudes do mundo material. Quando os homens perdem a fé, é por que perderam a capacidade de trazer a sua memória, razões que lhes tragam esperanças. E estas razões, muitas das vezes estão na crença de que para além deles e seus duros cotidianos, existem um lugar e alguém maior. A este lugar, alguns povos chamam: “céu”, outros: “seio de Abraão”, outros: “terras sem males”. A este alguém maior, algumas etnias, chamam de Nhandejara, Modimo*, Olorum*, Alá, e outros ainda de Javé.

Pensando isso imaginei a seguinte situação: “Um dia todos os povos do mundo se reuniram para um desafio. Um cristão propôs que, todos os religiosos do mundo, que criam na existência de um deus, se juntassem em uma grande planície e invocassem ao mesmo tempo o nome de sua divindade. O desafio foi aceito, e no dia e hora marcada, em uma grande planície, todas as religiões monoteístas, se reuniram para o grande desafio. Ali estavam além do povo reunido, os sacerdotes de cada religião. O cristão que fez o desafio ditava as regras do jogo. E então gritou: – todos os sacerdotes venham para o centro. Ao que todos obedeceram. O Cristão falou-lhes: – Olhem para aquele grande relógio, daqui a cinco minutos, quando forem seis horas em exato, todos a uma só voz deverão gritar o nome de seu deus. A divindade que aparecer primeiro, será o único e verdadeiro deus. Para sabermos quem de nós estava crendo no deus verdadeiro, aquele que o reconhecer como sendo o deus que em seu coração imaginava, deverá correr para ele, e o abraçar. Todos sonoramente gritaram – amém!

O silencio tomou conta do vale. Era um silencio tal, que podia se ouvir o barulho de uma pluma caindo ao chão. Aqueles cinco minutos pareciam ser os mais longos vividos por cada religioso ali presente. Mas, o tempo foi passando, quatro, três, dois, um, eeeeeee… Foi um grito só, e também uma correria só, pois ao surgir no horizonte uma figura, todos os religiosos correram ao encontro dela, pois viram nela aquilo que imaginavam em seus corações. Inclusive os sacerdotes cristãos. A figura com rosto indizível, de cuja face erradicava luz, abrindo os braços acolheu a muitos dos que correram em seu encontro, porém, nem todos que lhe correram ao encontro puderam a abraçar, pois era Ela maior do que todos, e alguns não conseguiam ficar de pé diante do esplendor de sua glória.

No Seio da divindade, um cristão, um rabino judeu e um Imam mulçumano, tomados de espanto, olhando entre si perguntaram a uma só voz: – Mas Senhor, como é que pode ser Tu o meu Deus o Deus deles também? Ao que uma grande voz como de trombeta respondeu:

– Como podem ser assim tão incoerentes entre o que crêem e aquilo que apregoam? Afinal não disse Eu, e vos mandei pregar que há um só Deus, acaso esperavam ver algum outro deus aqui? Um dos religiosos ainda sem entender continuou perguntando: – Mas Senhor, como explicar tantas coisas feitas em seu nome, sacrifícios humanos, terrorismo cruzadas, destruição de culturas e civilizações? Nomes estranhos pelos quais te invocavam? Como… Deus interrompeu – Vocês não compreenderam nada, nunca desejei ou pedi-vos nada disso. E tem mais, entendam que muito antes de vocês fazerem suas missões, alcançando povos os quais julgavam bárbaros, como testemunhas diante deles, os céus, já proclamavam a minha gloria, e o firmamento anunciava as obras de minhas mãos. Diante disso o cristão indagou, – Mas Senhor e as Missões, como deveriam ser feitas então? Deus disse: – Eu mandei-vos anunciar que Eu Sou o Grande Eu Sou, vocês deveriam ter visto que em meio a estas civilizações, eu já estava, deveriam ter percebido entre eles sinais de minha presença, suas tarefas era tão somente construírem pontes para que tais povos pudessem melhor me conhecer e servir. O cristão mais uma vez interrompeu: _ Mas Senhor, é os povos com culturas e costumes estranhos, a ponto de andarem nus, tendo duas ou mais esposas, acreditando que o Senhor, estava em um rio, numa arvore, no fogo? Com voz sempiterna Deus respondeu: _ Eu vos mandei evangelizá-los e não satanizá-los, destruindo a cultura deles… Vossas pretensiosas ciências a meu respeito deveria ter mostrado-lhes, que em toda cultura existe, elementos humanos, divinos e demoníacos. Diante destes elementos, vocês deveriam discernir minha presença e proclamar meu Nome, anunciando e vivendo como luzes, como faróis conduzindo a Mim todos os povos, que tateando em meio a seus sistemas religiosos, perdidos entre elementos sagrados e profanos tentam me encontrar. Repito, não há outro Deus acima nem abaixo de mim, Eu Sou o único Deus, nenhum outro há além de mim, nenhuma criatura pode me resistir, nem mesmo o mais rebelde e decaído dos anjos e todas as suas hostes infernais.

Um dos religiosos ainda insistiu perguntando: – Mas Senhor, como é que o Senhor estava no meio destes povos? Naquele instante Deus desapareceu. Mas de repente veio uma brisa suave quase que imperceptível, mas que trazia com ela um eco tardio dos nomes que os religiosos gritaram a uma só voz no inicio do desafio, e ecoando por entre as montanhas que cercavam o vale, todos ali ouviram algo assim: amor, esperança, justiça, partilha, igualdade, perdão… O cristão então compreendeu que tais sentimentos, são sinais divinos em meio a qualquer civilização, mesmo que esta não conheça a Deus plenamente, como Ele se revelou na Pessoa de Jesus de Nazaré: o seu Cristo, a maior ponte constituída, construída sobre duas hastes, três pregos, e untada com sangue, formando para os sábios deste mundo apenas uma rude cruz, mas visto pelo prisma da fé cristã, como: único poder e via capaz de ligar céus e terra.

*Modimo. (Deus) Aquele que penetra e permeia todo ser/existência. África Austral. Povo. Sou/Tswana. Fonte. Teologia Africana. Uma introdução. Gabriel M. Setiloane. Editeo.

*Olorum: Deus Supremo, entre os povos Iorubanos, este nome é usado não somente nas religiões não cristãs, mas também entre os evangélicos nigerianos. Da mesma forma que o povo de Deus, ao longo da Bíblia, adotava nomes locais para se referir a Javé, durante toda a história da expansão da Igreja, missionários sábios adotaram nomes locais para se referir ao Único Deus do universo. Isto não é idolatria, apenas tradução com reinterpretação. De outra sorte, todos nós seríamos idolatras, pois empregamos o nome “Deus”, que se deriva do termo grego e originalmente pagão, “theos”. Olorum, o Deus supremo, nunca foi identificado com a natureza e também não pode ser adorado diretamente pelo não-religioso. Ele é transcendente […] É interessante que Olorum não pode ser representado através de imagens. Ele é considerado criador, único, imortal, onipotente, onisciente, rei e juiz. [Fonte Revista Ultimato. Ano XXX – nº 245, Março de 1997, p30. Antonio Carlos Barro (Londrina PR) e C. Timóteo Carriker (Campinas, SP) são missiológos]

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