Relevância e irrelevância do título no ministério pastoral metodista.

Publicado: 04/08/2008 em Artigos
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O exercício do ministério pastoral traz um peso de responsabilidade sobre nós, pois ao recebermos a ordenação, ou uma licença para o exercício de tal ministério, já não somos mais pessoas comuns. Ser pastor no Brasil, “por hora” ainda é ser pessoas a quem a sociedade, ou boa parte dela “ainda” deposita créditos, e espera que honrem no ministério o nome do Deus que declaram crer e da instituição (Igreja) a qual representam. Frisei “por hora” e “ainda”, pois teorizo que diante de tantos escândalos, envolvendo pastores/as e falsos/as pastores/as, tais créditos estão se esgotando.

Há cinco anos, quando era um evangelista, recebi do Reverendíssimo Bispo João Alves de Oliveira Filho, naquele período Bispo da Quinta Região Eclesiástica, uma designação para o exercício dos atos pastorais, visando assistir a uma comunidade Metodista que não podia manter um pastor formado. Assim, de Evangelista passei a ser MD, (Missionário Designado com funções pastorais). Enfrentei logo de inicio a crise do “ser e não ser”, pois diante dos muitos debates nos Concílios Distritais, muitas vezes eu saia com uma tremenda crise de identidade, pois para minha igreja comunidade eu era pastor, mas diante da Igreja Instituição, o que para mim ficava bem evidenciado nas reuniões, votações e atas conciliares é que eu não era pastor. Deus ajudou-me a superar tal crise, quando por ocasião de um Concilio Distrital na Igreja Metodista Central de Dourados, a Pastora Zenaide, que pastoreia a Igreja Metodista na cidade de Ponta-Porã, fronteira com o Paraguai, chamou-me de lado, durante um intervalo, e abrindo sua Bíblia, mostrando-me uma passagem, disse-me, Deus mandou você fazer isso aqui: “Tu, porém, sê sóbrio em todas as coisas, suporta as aflições, faze o trabalho de um evangelista, cumpre cabalmente o teu ministério”. (2Tm 4.5) A partir daí, Deus me deu paz no coração, mostrando-me que independente do titulo que antecedia meu nome, eu deveria fazer minha parte, e tal parte era cumprir o ministério para o qual Ele me chamou: Pregar o Evangelho.

O tempo passou e pela graça de Deus, a qual até aqui me possibilitou vencer as muitas lutas, no ano que vem concluirei o Curso Teológico Pastoral, e se a interpretação, que eu faço de uma das decisões do último Concilio Geral estiver correta, eu e meus pares do CTP, receberemos a partir do quarto ano o título de “pastor/a acadêmico”. Se assim for confesso que sentirei saudades do meu atual título de MD, “Missionário Designado”. Lamentavelmente essa é uma nomenclatura e funções dela derivada, que me parecem inexistentes, pois não são tratadas de forma clara nas páginas dos Cânones e demais documentos da Igreja Metodista, mas enquanto pessoas se personificam bem presentes, visíveis e atuantes em muitos campos missionários da mesma Igreja por este Brasil a fora.

Vou sentir saudades, pois com essa sigla MD, eu costumo brincar nos Concílios Regionais, quando o assunto vem à baila, e quase sempre ele vem. Brinco que certa vez eu estava em crise, e em meio a ela, perguntei para Deus: “Senhor, a Igreja instituição em seus documentos diz que não sou pastor, aliás, nem apareço em tais documentos, à igreja povo me chama de pastor, pois lá sim apareço e atuo. Pai, presbítero sei que não sou, embora eu almeje um dia ser. Alguns pastores chamam-me de MD, outros me chamam de pastor, me digas Tu, Divino Mestre, o que enfim, sou eu? uma vez que, só tu és o Eu Sou? Neste instante uma voz disse-me – tu és: MD. Eu indaguei Missionário Designado, Senhor? A Voz disse – Não. “Mestre Divino.” Se Deus estivesse preocupado, e diante Dele tivesse mais valor o titulo que antecede nossos nomes, do que o testemunho que damos do Nome Dele, com certeza o jocoso e fictício relato acima citado poderia passar como verdadeiro e seria uma maldição, e não benção, pois títulos muitas vezes inflamam nossos egos, e penso ser por isso que independente das nomenclaturas por nós adotadas por fins burocráticos, as Escrituras Sagrada, chama-nos a sermos e vivermos como “servos/as”.                                                                                                                                                                                                                   Tenho aprendido que ser pastor/a é uma responsabilidade e tanto, e conviver com isso não é nada fácil, pois é difícil sair e deixar o pastor/a em casa, ou na igreja, ele/a vai conosco, ele/a está em nós, seja na Igreja, seja na cama, seja na pizzaria, seja na lanchonete. A nomenclatura “Pastor”, a nós precede, podendo nos exaltar ou rebaixar, tudo de acordo com o valor que a sociedade faz e da a ela, quase sempre com base naquilo que a mídia mostra. Tal ambigüidade se manifesta de forma mais intensa, em meio ao povo de Deus, que sabe o real peso do título, e na hora de abrir o crédito no banco ou na loja. Porém, será mais enfatizado e pejorativamente, quando por um motivo ou outro a conta não for paga, ou dermos outro deslize qualquer, ou por razões até justas tivermos que ir a lugares onde a sociedade e mesmo as Igrejas consideram inadequados para um/a pastor/a ir. Pois, carregar o titulo de pastor/a é carregar uma marca, que todos esperam que seja de distinguibilidade, e isso muitas vezes gera o surgimento de espaços sagrados e profanos, e nos considerados profanos, o/a pastor/a não poderá entrar. E se acaso Jesus Cristo quiser ir até lá, que use outra maneira, que vá de outro modo, menos na pessoa do pastor/a.

A responsabilidade recai não só sobre nós, que temos o nome antecedido por siglas como: Pr (pastor/a), Ap, (aspirante ao pastorado), Pb (presbítero/a), Rev (Reverendo/a ) e outras mais, ela afeta também e muda os hábitos e identidades de nossas famílias, pois se o pastor/a for casado/a, e tiver filhos/as, ambos perdem seus nomes, passando a ser conhecidos/as: como esposo/a, do pastor/a, filho/a do pastor/a. Sendo muitas vezes cobrados em demasia, perdendo em certas comunidades o direito humano de errarem, pois sendo uma família pastoral dela se cobra perfeição. É interessante que o pastor/a é sempre visto como um ser a parte, quase que sem gênero. Exemplo: Quando você no exercício do ministério for fazer uma visita, leve junto outra pessoa cujo nome não seja antecedido por nenhuma sigla. Observe que ao bater palmas, certamente alguém olhará pela janela e dirá: “é um homem mais o pastor! ou é uma mulher mais a pastora!”.

Certa vez, uma irmã muito querida e seu esposo, chegaram até a mim, após e escola dominical, e disseram: “-pastor queremos que o senhor venha conosco, almoçar em casa, porém com uma condição. Perguntei – Qual é? Ela disse: – que o senhor deixe o pastor em casa, não queremos que o senhor ore nem pela refeição, não queremos ouvir o senhor falar nada de bíblia e igreja, queremos que o senhor seja o senhor mesmo, sem agir como pastor.” Eu achei estranhas aquelas condições, mas aceitei, porém não consegui cumprir o trato, quando me dei conta, estava falando de igreja, de bíblia, de Deus, e indicando para eles o filme evangélico: “Desafiando gigantes”.

Ser e viver como pastor/a é um desafio, ainda mais que temos a obrigação se sermos diferentes, sem, contudo sermos indiferentes, ou alienados/as. Penso que em certo sentido, somos chamados a sermos “mundanos”, pois Jesus orou: “Pai eu não vos peço que os tire do mundo, mas que os livre do mal” (Jo 17.15). Temos que viver no mundo e amá-lo, agindo em sua transformação como agentes do Reino de Deus, numa luta para discernirmos os sinais desse Reino, manifestos fora da Igreja, e com estes sinais extra Igreja fazermos pontes, isto implica em sermos “mundanos”, sem vivermos de forma libertina seguindo os valores errôneos e sistema iníquo que operam no mundo.  Somos chamados a exercer o ministério em uma sociedade brasileira, na qual quanto mais aumenta o número de evangélicos, menos transparece o Evangelho, pois a igreja brasileira cresce no quesito quantidade, mas tem deixado a desejar no essencial que é: qualidade e santidade social. O ministério pastoral genuíno, e o exercício do mesmo se tornam mais difíceis, pois basta vasculhar na internet, e você encontrará um cursinho de seis meses, do qual o individuo sai “bacharel em teologia”, com a benesse de receber “diploma” e “carteirinha de “pastor/a em casa, via sedex dez. Muitos desses Indivíduos tornam se pastores/as formados/as, ou deformados/as, sem quase nada do ensino Reformado, dentre os quais, alguns/umas são inegavelmente bons oradores, com discursos prontos, carregados de jargões e frases de efeitos, ávidos/as para trabalharem, pois sabem que “templo é dinheiro” e que diante do concorrido mercado religioso brasileiro, não se pode perder tempo, pois precisam iniciar suas “pequenas igrejas”, tendo em vista “grandes negócios”.

É amado/a leitor/a, você que já é, ou almeja ser pastor/a, saiba que alguns títulos pesam sobre nós, eles grudam, impregnam, não largam. A coisa é tão séria que mesmo que um dia, venhamos a deixar o ministério, seremos tanto dentro como fora da igreja chamados/as de “Ex pastor/a”, mesmo que deixemos o exercício da função, o titulo permanecerá, sucedendo o enfático “Ex”. Eis ai o porquê temos o desafio de mostrar com a vida, que existem diferenças entre pastores/as e “pastores/as”. Igreja compromissada com o Reino da graça e da Glória, e igreja interessada no reino do mundo .

A Bíblia Sagrada tem inúmeros conselhos para o melhor exercício daquilo que alguns de nós estudantes de teologia, já exercemos e outros/as ainda irão exercer: o ministério pastoral. E nesse exercício nossos nomes serão antecedidos, por algo, que para quem realmente tem vocação, fulgura como sendo muito mais que um “título”. Pois, para quem aceitou o chamado, ser, viver, sofrer e até mesmo morrer como pastor/a é muito mais que ser um profissional eclesiástico. É ser um dos frágeis vasos de barro, imperfeitos, falíveis, mas que Deus revestiu de dignidade ao escolher e capacitar, a fim de fazer por meio de tais vasos manifesta a Presença Dele ao mundo. Por assim ser o título torna-se irrelevante, mas a atuação e vivencia como pastor/a é de suma importância e relevância espiritual e social.       No exercício ou na expectativa de exercer o autêntico ministério Pastoral, o que deve nos assustar, não deverá jamais ser a reação positiva ou negativa a ele por parte da sociedade, diante da qual temos que testemunhar o Evangelho. Importa antes, não retrocedermos, temerosos se para ela o ofício pastoral é coisa de somenos, pois o que nos deverá motivar, nos mover e alavancar, é saber para quem fazemos e sobre quem exercemos o pastorado. Quando atino para isso, as palavras do Apóstolo Pedro, causam – me temor e tremor todas as vezes que as leio, pois elas demonstram que para aqueles/as há quem muito foi dado, igualmente muito será cobrado: “pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós, não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer; nem por sórdida ganância, mas de boa vontade; nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes, tornando-vos modelos do rebanho. Ora, logo que o Supremo Pastor se manifestar, recebereis a imarcescível coroa da glória.” (I Pe5. 2)

Que Deus tenha misericórdia de nós, futuros formandos do CTP e do presencial turma 2006. Que Deus tenha misericórdia dos que já estão no exercício do ministério, independente se sob as nomenclaturas de Evangelistas, Missionários/as Designados/as, Pastor/a Acadêmico/a, Aspirante ao pastorado, Aspirantes ao Presbitério, Presbíteros/as, SDs distritais ou de campos missionários, Bispa e Bispos ativos, eméritos e honorários. Mestres, Doutores…  Que a graça de Deus nos capacite a fazermos aquilo para o qual Ele nos constituiu e chamou-nos a sermos; acima e antes de tudo servos/as atuantes no pastoreio do rebanho Dele.

Missionário Designado. José do Carmo da Silva (Zé do Egito)

Igreja Metodista em Fátima do Sul-MS.

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