“Exigindo um pedido de perdão”.

Publicado: 30/07/2008 em Artigos
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“Mas dizeis: Por que não leva o filho a iniqüidade do pai? Porque o filho fez o que era reto e justo, e guardou todos os meus estatutos, e os praticou, por isso, certamente, viverá. A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a iniqüidade do pai, nem o pai, a iniqüidade do filho; a justiça do justo ficará sobre ele, e a perversidade do perverso cairá sobre este”. (Ez.18, 19,20)

“A população negra está na margem da riqueza produzida pela sociedade brasileira, situação reforçada pelas igrejas na cumplicidade e omissão perante a escravidão e anos de racismo no Brasil”, destaca o texto. Vai chegar o momento em que as igrejas históricas vão ter que, necessariamente, tratar desse tema. “É um processo, e o movimento negro vai exigir um pedido de desculpas”[1]

Essa reflexão nasce do manifesto acima, que foi enviado por oito entidades negras evangélicas por ocasião de 13 de maio de 08, a algumas Igrejas Protestantes Históricas, quero não contestar a participação das Igrejas no escravismo negro, mas sim, enquanto negro e protestante, ponderar sobre o: “exigir um pedido de desculpas”, que interpreto como sendo de perdão, pois omissão é pecado, Portanto, aquele que sabe que deve fazer o bem e não o faz nisso está pecando (Tg4.17). E, enquanto cristão creio que por pecado se pede perdão, e não desculpas.

Sem dúvida a escravidão, foi um grande mal do passado, cujas conseqüências dolorosas, permanecem na atualidade, e sem dúvida a Igreja Cristã, tanto Católica como Protestante, tiveram e tem responsabilidade nisso. E difícil julgar toda a História, é mais fácil analisá-la, tentando compreende-la, aprendendo com o passado, para não reproduzir os erros no futuro.

Como negro, sinto na pele, as conseqüências da escravidão, mas, quero falar sobre a atualidade, e as ações dos Movimentos Negros Evangélicos, no tocante a “exigir” dos demais Protestantes Históricos, um pedido de “desculpas”, que interpreto aqui como de perdão. Não almejo aqui, contrariar a necessidade de reparação por parte das demais Igrejas Protestantes, em relação ao povo negro. Questiono, porém, a expressão “exigir”, de alguns grupos evangélicos negros, pois penso que se o manifesto acima citado, obtiver êxito, esse êxito por ser fruto de uma exigência por parte de meus pares negros e evangélicos, tal pedido feito, não terá profundidade. Penso que os caminhos para a superação dos racismos e preconceitos contra quaisquer pessoas sejam: negras, brancas ou indígenas, passam pelo diálogo. Teorizo que negros e brancos devem juntos por se a “caminho”, creio que nesse caminhar de fé e compreensão, com humildade de ambas as partes, as diferenças, étnicas, culturais e sociais, serão compreendidas gerando a aceitação e o respeito mútuo.

Evoco aqui, o que dizia Wesley, revivendo Agostinho: “No essencial unidade, no não essencial liberdade e em tudo o amor”. No essencial, negros e brancos devem se somar em torno daquilo que os unem: a fé em um Deus que se fez carne, independente da cor da tez adotada pelo Verbo Divino, quando se manifestou na pessoa de Jesus de Nazaré. O não essencial é exatamente não dividir-se, em um grupo que adora a Jesus Cristo, por julgar que ele era negro. E outro que o adora, pois crê que ele possuía traços europeus. Isso é irrelevante, pois penso que, Jesus de Nazaré, merece adoração não por ter nascido judeu, etíope ou alemão, mas sim por que nele Deus se esvaziou, abrindo mão de todo o esplendor de sua gloria e divindade, se tornado humano. Ao fazer isso o Verbo de Deus, exaltou a todos os gêneros e etnias que compõem a única raça humana criada por Deus.

O amor deve prevalecer, nessa questão, ele deve ser o árbitro nos corações, agindo como motivador do pedido de perdão da parte das Igrejas Cristãs Protestantes Históricas, ou Católica Romana, pelos males da escravidão. E, esse mesmo sentimento de amor deverá fazer com que cada povo dentro de seus costumes e tradições, ritmos, ritos adorem e confessem para Glória de Deus que Jesus Cristo é Senhor. A razão da escravidão foi devida aos homens não amarem a seu próximo, ou escolher pela cor quem seu próximo seria. Os que se julgavam de raça ou cultura superior racionalizaram: “se na cor da pele, no fenótipo, na dança, na religião, na cultura, são diferentes de nós, então não somos semelhantes!”, e assim com base no lucro que geraria esse vão raciocínio, escravizaram índios e negros.

Digo que um pedido de perdão vindo das Igrejas Protestantes históricas, exigido da parte de meus pares negros e evangélicos é por mim dispensável. É dispensável por ser exigido, pois, penso que a humilde e sublime atitude de pedir perdão, não pode ser fruto de manifestos, ou decretos, antes deve resultar do amor de Deus derramado em cada coração, o qual leva cada pessoa ou organização, a cair em si, e após refletir sobre seus atos, tomar a decisão de se levantar e ir ao encontro do ofendido. As razões das escravidões indígenas e negras são diversas, mas, a maior delas foi o amor, porém, amor não ao próximo, mas sim amor ao dinheiro. O homem nasceu para amar, quando ele não ama o que é certo, inevitavelmente amará o que é errado. Quem escraviza o outro, ama a si mesmo, pois querendo seu próprio bem, faz o mal a quem considera diferente. Os colonizadores amando a si mesmos, tiraram os maiores bens de seus próximos: liberdade e dignidade humana.

O Apostolo Paulo, considerado o maior propagador da fé cristã em meio a culturas diferentes da dele, disse: “Pois o amor ao dinheiro é uma fonte de todos os tipos de males. E algumas pessoas, por quererem tanto ter dinheiro, se desviaram da fé e encheram a sua vida de sofrimentos”. (1Tm 6.10). A escravidão no passado nasceu do desejo de lucro e se prolongou por medo de se perder tal lucro, assim sendo, no Brasil, para negros e índios ela foi à raiz de todos os males presentes. Porém, não foram os escravistas, que encheram suas vidas de sofrimentos, pois, foram indenizados pelo Estado, por ocasião da abolição mal feita, que aboliu os grilhões, mas alimentou a desigualdade social, pois, não se buscou inserir os negros livres na sociedade, antes os marginalizam. Hoje, 120 anos depois da assinatura da Lei Áurea, basta um olhar, para se notar as gritantes diferenças entre os descendentes dos europeus, dos negros e dos indígenas. Um olhar sobre fatores como: indicadores econômicos, índices de mortalidades infantis, graus de escolaridades, vitimas de chacinas, população carcerária, desemprego, e rapidamente se verá o tamanho do abismo social, e quem se favoreceu e quem ainda sofre estigmatizado pela escravidão. Mas, não basta só constatar, antes é preciso: ver, julgar e agir.

Como cidadão, negro e cristão protestante, penso que, deve sim existir uma manifestação de contrição, mas, como fruto do arrependimento, que produz reflexão levando ao ato de em amor pedir perdão. Se não seguir esses passos, tal pedido é inócuo, pois nasceu da imposição, ou conveniência. Nascendo dessas razões, não gerará fruto de arrependimento sincero, que é a mudança. Não gerará o efeito que causou em Zaqueu, ao recepcionar Jesus em sua casa: “Senhor, resolvo dar aos pobres a metade dos meus bens; e, se nalguma coisa tenho defraudado alguém, restituo quatro vezes mais”. (Lc 19.8). Ou seja, pedidos de perdões quando não são frutos de uma conversão a Cristo, tornam-se frutos podres da hipocrisia, que não gerarão resultados reparatórios e concretos nas vidas dos ofendidos. fé cristã ensina que se pede perdão, por pecados cometidos, e a escravidão foi um pecado do passado, cujas conseqüências permanecem até hoje. Desse pecado participaram os cristãos, que amaram mais ao lucro do que a seu próximo. Por isso, legitimamente ao povo negro cabe um pedido de perdão, mas, esse pedido deve ser movido pela visão e aceitação dos negros e índios como semelhantes, e amá-los profundamente como pessoas humanas, com todos amplos direitos e deveres que essa condição lhes outorga. Pois se não for assim, por amor, respeito, aceitação, tal pedido de perdão, ainda que seja feito dentro das mais solenes catedrais, com as mais elaboradas das liturgias e cerimônias cúlticas, será como o bronze que soa ou como o címbalo que retine.

Motivados pelo amor, tocados pela graça de Deus, a qual opera no individuo tanto o querer como o executar, os cristãos devem pelos fatos abaixo relacionados e muitos outros, pedirem ao povo negro perdão. Pois, por amor ao dinheiro, desde os tempos remotos nasceu a escravidão. E foi por amor ao dinheiro, para se manter o status quo segregacionista, de forma declarada ou velada, usando dos mitos da supremacia racial para escravizar, que os homens prosseguiram em sua crueldade, invocando até mesmo a Deus, emparelhando-o a vozes passadas de sábios filósofos. Sábios estes, que apesar de suas sabedorias, eram seres humanos, e por assim ser, eram falíveis, e no caso da escravidão certamente erraram. Errando também, dentro ou fora da Igreja quem evocou a Aristóteles, e sua teoria de raça inferior e raça superior. Erraram e pecaram também, os teólogos, clérigos, religiosos, leigos, católicos ou protestantes, que a seus bels prazeres, a fim de locupletarem-se, distorceram as Sagradas Escrituras, e fundamentados em suas distorções, certos de que Deus os apoiava na mais cruel das vilanias que já se viu em baixo do céu, dormiam em paz, dentro de suas casas grandes, em suas luxuosas camas, bem forradas com os mais caros tecidos de seda e cetim, quem sabe de cores vermelhas tão fortes, como a cor do sangue dos escravos, que nas noites frias com seus corpos macerados, jaziam nas camas de palhas das senzalas, ou ao relento presos ao pelourinho, vertendo sangue, devido a chibatadas do feitor.

O supracitado é apenas um pouco dos atos cometidos na escravidão contra o negro, o que de fato se constitui pecado diante de Deus. Porém, as gerações que cometeram tudo isso, passaram, morreram, e já não podem pedir perdão. E creio que um pedido de perdão dos descendentes dos colonizadores brancos hoje, não terá efeito sobre seus ancestrais. Mas penso, que seus descendentes sendo cristãos ou não, devem dentro do espírito de liberdade, igualdade e justiça de nossa época, trabalharem para minorar o mal causado por seus ancestrais, buscando combater a perpetuação, alimentação e conseqüências da escravidão. Desse processo reparatório atual, devem participar também: o Estado, as famílias herdeiras e instituições religiosas, que após uma libertação mal realizada, ainda hoje desfrutam do fruto do sangue dos ancestrais do povo negro brasileiro, gozando de uma herança maldita, alicerçadas sob os corpos de milhares de homens, mulheres e crianças negras, que morreram no ventre dos fétidos tumbeiros, e foram sepultados em alto-mar. Heranças cimentadas com o sangue do negro vertido nos cafezais, nos canaviais ou nas minas em solo brasileiro.

Os afro-descendentes, hoje vivem em grande maioria na miséria, não só pelo histórico fato de seus ancestrais terem sido escravos no Brasil, mas, sim, por causa de uma libertação não acompanhada de reparação, educação e inserção social. Hoje apesar de ser maioria populacional, o povo negro vive na invisibilidade, a margem de uma nação a qual por quase quatro séculos seus ancestrais sustentaram, com suor, lágrimas, sangues e vidas.

Participam da culpa por perpetuação das mazelas do escravismo, as Igrejas, que mesmo diante do racismo velado institucionalizado, tentam celebrar, dizendo: “paz”! “paz!”, enquanto não há paz. Não há paz, pois ela só pode existir a partir do momento que se pede e se libera perdão, e o perdão tem que ser motivado por amor, mas acompanhado por reparação. A paz se constrói no dar e receber perdão, no ver a miséria materializada na vida das populações negras e indígenas, no julgar a situação opressiva sobre eles, agindo para superar as desigualdades sociais e étnicas que os mantém mesmo 120 anos depois da Lei Áurea, cativos a exclusão social. Do amor de Cristo que constrange a tudo isso, unindo brancos, negros e índios, nascerá enfim o fruto da justiça desejado por todos os povos, o qual se chama: Paz.

Pr. José do Carmo da Silva. (Zé do Egito)

Cristão afro-descendente e Metodista pela Graça de Deus. przedocarmo@gmail.com


[1] Revista Ultimato. Publicado em: 15 de maio de 2008 . Disponível em: http://www.ultimato.com.br/?pg=show_conteudo&util=1&categoria=2&registro=720. Acessado em 29/07/08

comentários
  1. JOSÉ OLIMPIO disse:

    Graças ao bom Deus, não carrego nenhum resquício de preconceitos. Antes mesmo de ser religioso.
    Creio que nada forçado é agradável. Nem Deus exige nada de nós. O pedido de perdão a nós, por que também sou da cor preta, deve nascer do reconhecimento e valorização dos trabalhos prestados neste país pelos nosos ancestrais, afro-descendentes, e não uma exigência. Do contrário perderia o efeito essa atitude do pedido de perdão.
    Ainda bem que o racismo não está implegnado em toda a nação, e sim em partes deste território brasileiro.

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