“A Colonização e o Anti-Evangelho da des/graça”

Publicado: 30/07/2008 em Artigos
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Uma noite tive um sonho. Sonhei que um homem negro de pele mui lustrosa, vestido com trajes típicos aos antigos negros africanos, aproximou-se de meu leito, e tocando em minha cabeça, disse – me: – Filho da África desperte, sim, despertai – vós, tu que fostes ha mais de cinco séculos, em meu lombo arrancado dos braços de sua terra natal, vem e segue-me. Segue-me e farei a você saber, aquilo que não pode ser esquecido, enquanto não houver justiça, para que não mais aconteça, e por fim, finde as injustas conseqüências que ainda permanecem. O homem negro levou-me, a um dos cantos[1] de uma encruzilhada, onde eu vi outro velho, porém esse era cafuzo[2] assentado na calçada. O velho aparentava ter números incontáveis de dias, parecia estar vivo ha muitas e muitas centenas de séculos. Com uma cuia de esmola na mão, ele parecia contar historias, e algumas pessoas paravam para ouvi-lo. Aproximei-me, e ao chegar mais perto, ele estendeu a cuia, na qual coloquei uma moeda. Ele agradeceu as moedas, e em voz alta proclamou: -“O Anti- Evangelho segundo o Colonizador, página 22, Capitulo 04 Versículo 1500. Ao que o povo composto de afro-descendentes e ameríndios, a uma voz responderam: – recontai nossa história oh cafuzo avô! O velho cafuzo mergulhando em suas lembranças passou a contar uma história começando exatamente assim: – “Naquele tempo, indo com suas Naus, como eram acostumados, avistaram um Novo Mundo, gritou-se terra a vista, segundo o seu costume, e atracaram-se na praia a fim de conhecê-la. Então, desce um homem com o corpo coberto por toda parte, aparece somente seu rosto. Ele é branco como se fosse de cal. Tem o cabelo amarelo, embora outros atrás dele tenham cabelos pretos. Longa é a sua barba, também amarela; o bigode também é amarelo. São de cabelos crespos e finos, um pouco encaracolados[3]. Pegando em suas armas que cospem fogo e estrondam como o trovão, e, apontando-as para cima, um deles que parecia ser o chefe declarou o que abaixo segue escrito:

“O espírito da Dominação está sobre mim, pelo que me ungiu para desesperançar os pobres; enviou-me para proclamar cativeiro aos livres e perfuração da vista aos que enxergam, para pôr sob opressão os que jazem em liberdade, cortar e por cadeias no pulso dos chefes, negociar vossos corpos como peças, por em grilhões vossos pés e mãos, atar-vos e supliciar vossos corpos em castigo, pilhar vosso ouro, abrir a espada o ventre de vossas esposas e forçar vossas virgens, reduzir-vos a escravidão, e impor sob vós o julgo impiedoso do Colonizador”.

Tendo dito isso, falou ao assistente: fincai-a cruz, e enquanto o assistente fincava a cruz, o chefe para dentro da grande canoa voltou. E todos na praia, vários de vários povos, “cujas feições deles e serem bem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Não fazem o menor caso de encobrir ou de mostrar suas vergonhas; e nisso tem tanta inocência como em mostrar o rosto.” aos quais pouco tempo depois se ajuntou uma gente de pele preta, que não eram desse lugar. Ambos os povos indígenas e os de peles pretas lustrosas, de pé na praia tomados por um misto de temor e tremor, tinham os olhos fitos neles.

Então, o velho cafuzo, olhando para mim, com lágrimas nos olhos, disse: – “Nas Américas, sobre os nossos ancestrais, se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir”. Eu estarrecido e perplexo perguntei. – E os índios, e o povo de pele lustrosa, o que fizeram? O Velho cafuzo respondeu a mim: – Todos ficaram apreensivos, e se angustiaram, mesmo sem entender se perturbaram diante das palavras de desgraça que lhe saíra dos lábios. Porém seus chefes e sacerdotes encantados com o poderio deles se perguntavam: Não seriam eles os nossos deuses?

Parte da história acima por mim citada, criei, baseando-se, porém de forma inversa as palavras de Jesus de Nazaré na sinagoga diante dos judeus, relatadas no Evangelho de Lucas cap 4 v18, 22.

“Indo para Nazaré, onde fora criado, entrou, num sábado, na sinagoga, segundo o seu costume, e levantou-se para ler. Então, lhe deram o livro do profeta Isaías, e, abrindo o livro, achou o lugar onde estava escrito:

O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos,

e apregoar o ano aceitável do Senhor.

Tendo fechado o livro, devolveu-o ao assistente e sentou-se; e todos na sinagoga tinham os olhos fitos nele. Então, passou Jesus a dizer-lhes: Hoje, se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir. Todos lhe davam testemunho, e se maravilhavam das palavras de graça que lhe saíam dos lábios, e perguntavam: Não é este o filho de José?”

Assim fiz, para destacar a diferença, entre aquilo que Jesus Cristo, cabeça da Igreja, proclamou como sendo sua Missão entre e a favor dos oprimidos, e o que a Igreja que se considera seu corpo fez, em nome Dele, do Império, do papa, e da cristandade e do lucro.

O relacionamento da Igreja Cristã e os povos de etnias negras e indígenas, desde a colonização das Américas, têm sido marcados por imposição do Credo, inumeráveis Carnificinas supressão da liberdade por meio do cativeiro. As essas situações que foram impostas aos povos negros e ameríndios chamo de Anti-Evangelhos, ou Evangelhos da desgraça, pois a Igreja Cristã, atrelada ao poder colonizador, não proclamou o Evangelho verdadeiro, mas sim o da conquista das terras, aculturação e escravização de povos por Deus feitos livres. Não anunciou o Evangelho da Graça, mas em oposição a ele, o da desgraça, que reduzia às gentes conquistadas a escravidão, impondo a elas o julga da cultura ibérica.


[1] APARECIDO, Antonio da Silva. Comunidade negra: passado e presente. Curso de verão. Ano 1. (org) Beozzo José Oscar. Coleção Teologia Popular. p153. Na Bahia, os cantos eram agrupamentos de negros, de preferência em um cruzamento de ruas. Alise trocavam informações, e os velhos conversavam sobre os tempos de sua juventude.

[2] Mestiço de negro e índio. Os naturalistas alemães Spix e Martius, que estiveram no Brasil em viagem de estudos em entre 1817 e 1820, assim descreveram os cafuzos em seu livro de Viagem pelo Brasil; “Nesta região notamos diversas famílias dos chamados cafuzos, que são bastardos de negros e índios. O seu aspecto é dos mais estranhos que um europeu possa encontrar. São homens de estatura esbelta, larga, e de forte musculatura; os músculos do peito e, sobretudo do braço, são muitos desenvolvidos; ao contrário, têm os pés relativamente mais finos. Os traços da fisionomia fazem em geral lembrar mais a raça etiópica do que a americana. A cor da pele é de cobre escuro ou pardo café. O rosto é oval, as maçãs são muito salientes, porém menos largas e separadas do que dos índios; o nariz é largo e chato, sem ser virado para cima nem muito curvado, a boca larga tem lábios grossos iguais, e assim como o queixo, poucos salientes. Os olhos negros são de olhar mais franco do que dos índios, entre tanto um pouco oblíquos, embora não tão fortemente juntos como nestes; por outro lado, não são virados para fora como nos etíopes. O que, porém, dá a esses cafuzos aspecto singular é a cabeleira extremamente comprida, e que se encrespa algo perto das pontas; no meio da testa eleva-se até pé e meio de altura.” EDIPE. Enciclopédia Didática de Informação e Pesquisa Educacional. Vol 3. 3.ª Ed. Editora Iracema -1987.p 715.

[3] LEÓN PORTILLA, Miguel. A visão dos vencidos: a tragédia da conquista narrada pelos astecas. Tradução de Carlos Urbin e Jacques Wainberg. Porto Alegre: L&PM,. p 47.

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