Arquivo de julho, 2008

Uma noite tive um sonho. Sonhei que um homem negro de pele mui lustrosa, vestido com trajes típicos aos antigos negros africanos, aproximou-se de meu leito, e tocando em minha cabeça, disse – me: – Filho da África desperte, sim, despertai – vós, tu que fostes ha mais de cinco séculos, em meu lombo arrancado dos braços de sua terra natal, vem e segue-me. Segue-me e farei a você saber, aquilo que não pode ser esquecido, enquanto não houver justiça, para que não mais aconteça, e por fim, finde as injustas conseqüências que ainda permanecem. O homem negro levou-me, a um dos cantos[1] de uma encruzilhada, onde eu vi outro velho, porém esse era cafuzo[2] assentado na calçada. O velho aparentava ter números incontáveis de dias, parecia estar vivo ha muitas e muitas centenas de séculos. Com uma cuia de esmola na mão, ele parecia contar historias, e algumas pessoas paravam para ouvi-lo. Aproximei-me, e ao chegar mais perto, ele estendeu a cuia, na qual coloquei uma moeda. Ele agradeceu as moedas, e em voz alta proclamou: -“O Anti- Evangelho segundo o Colonizador, página 22, Capitulo 04 Versículo 1500. Ao que o povo composto de afro-descendentes e ameríndios, a uma voz responderam: – recontai nossa história oh cafuzo avô! O velho cafuzo mergulhando em suas lembranças passou a contar uma história começando exatamente assim: – “Naquele tempo, indo com suas Naus, como eram acostumados, avistaram um Novo Mundo, gritou-se terra a vista, segundo o seu costume, e atracaram-se na praia a fim de conhecê-la. Então, desce um homem com o corpo coberto por toda parte, aparece somente seu rosto. Ele é branco como se fosse de cal. Tem o cabelo amarelo, embora outros atrás dele tenham cabelos pretos. Longa é a sua barba, também amarela; o bigode também é amarelo. São de cabelos crespos e finos, um pouco encaracolados[3]. Pegando em suas armas que cospem fogo e estrondam como o trovão, e, apontando-as para cima, um deles que parecia ser o chefe declarou o que abaixo segue escrito:

“O espírito da Dominação está sobre mim, pelo que me ungiu para desesperançar os pobres; enviou-me para proclamar cativeiro aos livres e perfuração da vista aos que enxergam, para pôr sob opressão os que jazem em liberdade, cortar e por cadeias no pulso dos chefes, negociar vossos corpos como peças, por em grilhões vossos pés e mãos, atar-vos e supliciar vossos corpos em castigo, pilhar vosso ouro, abrir a espada o ventre de vossas esposas e forçar vossas virgens, reduzir-vos a escravidão, e impor sob vós o julgo impiedoso do Colonizador”.

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“Mas dizeis: Por que não leva o filho a iniqüidade do pai? Porque o filho fez o que era reto e justo, e guardou todos os meus estatutos, e os praticou, por isso, certamente, viverá. A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a iniqüidade do pai, nem o pai, a iniqüidade do filho; a justiça do justo ficará sobre ele, e a perversidade do perverso cairá sobre este”. (Ez.18, 19,20)

“A população negra está na margem da riqueza produzida pela sociedade brasileira, situação reforçada pelas igrejas na cumplicidade e omissão perante a escravidão e anos de racismo no Brasil”, destaca o texto. Vai chegar o momento em que as igrejas históricas vão ter que, necessariamente, tratar desse tema. “É um processo, e o movimento negro vai exigir um pedido de desculpas”[1]

Essa reflexão nasce do manifesto acima, que foi enviado por oito entidades negras evangélicas por ocasião de 13 de maio de 08, a algumas Igrejas Protestantes Históricas, quero não contestar a participação das Igrejas no escravismo negro, mas sim, enquanto negro e protestante, ponderar sobre o: “exigir um pedido de desculpas”, que interpreto como sendo de perdão, pois omissão é pecado, Portanto, aquele que sabe que deve fazer o bem e não o faz nisso está pecando (Tg4.17). E, enquanto cristão creio que por pecado se pede perdão, e não desculpas.

Sem dúvida a escravidão, foi um grande mal do passado, cujas conseqüências dolorosas, permanecem na atualidade, e sem dúvida a Igreja Cristã, tanto Católica como Protestante, tiveram e tem responsabilidade nisso. E difícil julgar toda a História, é mais fácil analisá-la, tentando compreende-la, aprendendo com o passado, para não reproduzir os erros no futuro.

Como negro, sinto na pele, as conseqüências da escravidão, mas, quero falar sobre a atualidade, e as ações dos Movimentos Negros Evangélicos, no tocante a “exigir” dos demais Protestantes Históricos, um pedido de “desculpas”, que interpreto aqui como de perdão. Não almejo aqui, contrariar a necessidade de reparação por parte das demais Igrejas Protestantes, em relação ao povo negro. Questiono, porém, a expressão “exigir”, de alguns grupos evangélicos negros, pois penso que se o manifesto acima citado, obtiver êxito, esse êxito por ser fruto de uma exigência por parte de meus pares negros e evangélicos, tal pedido feito, não terá profundidade. Penso que os caminhos para a superação dos racismos e preconceitos contra quaisquer pessoas sejam: negras, brancas ou indígenas, passam pelo diálogo. Teorizo que negros e brancos devem juntos por se a “caminho”, creio que nesse caminhar de fé e compreensão, com humildade de ambas as partes, as diferenças, étnicas, culturais e sociais, serão compreendidas gerando a aceitação e o respeito mútuo.

Evoco aqui, o que dizia Wesley, revivendo Agostinho: “No essencial unidade, no não essencial liberdade e em tudo o amor”. No essencial, negros e brancos devem se somar em torno daquilo que os unem: a fé em um Deus que se fez carne, independente da cor da tez adotada pelo Verbo Divino, quando se manifestou na pessoa de Jesus de Nazaré. O não essencial é exatamente não dividir-se, em um grupo que adora a Jesus Cristo, por julgar que ele era negro. E outro que o adora, pois crê que ele possuía traços europeus. Isso é irrelevante, pois penso que, Jesus de Nazaré, merece adoração não por ter nascido judeu, etíope ou alemão, mas sim por que nele Deus se esvaziou, abrindo mão de todo o esplendor de sua gloria e divindade, se tornado humano. Ao fazer isso o Verbo de Deus, exaltou a todos os gêneros e etnias que compõem a única raça humana criada por Deus.

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