Jesus Filho do Homem e Cristo de Deus.

Publicado: 21/05/2008 em Cristológia, Teologia
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“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus […] E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (João I. 1 e 14)

Apesar do duplo milênio do cristianismo e dos grandes concílios da Igreja, que trataram das questões cristológicas, existem ainda muitas dúvidas, contestações e mesmo ferrenhas oposições à pessoa de Jesus e sua condição cristológica. Para nós, cristãos, Jesus é crido e pregado como o Cristo Filho de Deus, o próprio Deus encarnado, manifesto em pessoa humana. Grupos dentro e fora da Igreja buscam encontrar hoje não o Cristo preexistente, Deus de Deus, proclamado pelas Escrituras e acessível somente pela fé e revelação do Espírito, mas sim o Jesus histórico, aquele que viveu em determinada época e local geográfico. Penso que além do exercício do direito de pensar diferente, que confere a quaisquer pessoas a liberdade de serem atéias professas, ou ainda agnósticas em relação a alguns pontos da fé cristã, tais contestações se devem à maneira como Jesus foi e ainda é apresentado ao mundo. Creio serem de suma importância as afirmações cristológicas de nossos credos, aplicadas à natureza de Jesus e de sua cristologia.

Afirmo como artigo inegociável de minha fé pessoal crer na divindade de Jesus e, em conformidade com as Escrituras e a Tradição Cristã, professo que Nosso Senhor Jesus Cristo é um só, sendo Filho igualmente perfeito na Divindade e igualmente perfeito na humanidade; verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, que consiste de alma e corpo racionais. Aceito que é ponto central da fé cristã a proclamação de que, há dois milênios, por meio da encarnação do Verbo, Deus de forma concreta e palpável, visível e relacional entrou de vez na história humana. Com ela interagiu de forma que há dois milênios naquelas ruas empoeiradas da Galiléia, na pessoa e nos atos de Jesus de Nazaré, um pobre carpinteiro, o Deus que anteriormente desceu no Sinai em meio ao som de trovões e relâmpagos fazendo o monte fumegar a ponto de causar temor e tremor no povo, pôde serenamente ser visto entre os leprosos e beberrões, samaritanos e publicanos, perdoando e comendo com pecadores, absolvendo e sendo seguido por mulheres pecadoras arrependidas. Pessoas que viviam a margem da vida social, política e religiosa, agora graças ao Emanuel sentiam o quanto eram amadas e importantes para o Pai.

Em Jesus de Nazaré aconteceu aquilo que nenhum sábio, escriba, ou inquiridor poderia por meio do saber humano prever ou mesmo aceitar. Na plenitude dos tempos aquilo que foi negado a Moisés (Ex 33.20), tornou-se acessível aos homens e mulheres marginalizados pelo poderes político e religioso. O incógnito Rosto do Deus Veterotestamentário em Jesus se tornou visível, pois diante da incredulidade de Filipe, que assim como Moisés ansiava por ver a face de Deus, o Filho do Homem declarou: “Estou há tanto tempo convosco, e não me tende conhecido, Filipe? Quem me vê a mim vê o Pai;” (Jo 14.9).

Jesus de Nazaré, segundo a revelação bíblica e testemunho do Espírito Santo que nos conduz a fé, é Deus entre os homens. Isto é fator central e irrevogável de nossa fé cristã. Porém, acredito que muitas vezes salientamos por demais o lado divino de Jesus em detrimento de sua humanidade, distanciando Jesus das pessoas, ausentando-o de seus conflitos e lutas humanas, colocamo-lo no campo do além, ou da subjetividade sem permitir que sua vida e obra tornem-se para nós modelo para ações concretas, que produzam mudanças na dura realidade do nosso cotidiano.

A compreensão e aceitação de Jesus como o Cristo de Deus devem operar mudanças individualmente em nossas vidas e no contexto social em que estamos inseridos. Ainda que tais mudanças sejam marcadas por nossas imperfeições humanas, enquanto aguardamos a plena manifestação e perfeição do Reino por, e em Cristo já manifesto, porém ainda não plenamente presente.

A exaltação do divino em detrimento do humano tem feito com que muitos neguem sua própria humanidade, querendo fazer-se deuses, contrapondo-se à atitude de Deus, que valorizou o humano se fazendo homem. Isso se pode detectar nos livros e músicas tocadas nas rádios e também nas igrejas, onde se focaliza sempre a transcendência de Jesus Cristo, e se despreza o maravilhoso fato de Ele ter se feito homem. Ele viveu intensamente tal humanidade sentindo medo, fome, sede, tristeza, choro, riso, alegria, questionamentos e outras atitudes que nos são humanamente próprias.

Creio que entre tantas provas de amor, o mais bonito da história da salvação se expressa no real sentido do Natal, o qual para mim constitui-se o ápice da cristologia, pois, a partir da encarnação do Verbo podemos falar de “naturezas” na Divindade. A encarnação do Verbo preexistente nos mostra a fraqueza de Deus, que numa incontida explosão de amor se esvaziou de sua glória e desceu até os pecadores deste mundo. Tal fraqueza e humilhação do Divino tornaram-se a força e exaltação do humano.

Em Jesus, a Divindade por amor à humanidade, livremente assume todas as conseqüências de nascer e viver entre os caídos espiritualmente e excluídos socialmente. O Filho de Deus assume-se como servo de Deus e dos homens, na total dependência de seu Pai Criador, mesmo a Ele sendo igual divinamente, escolhe viver como uma de suas criaturas humanas, andando, comendo, dormindo, sofrendo e por elas morrendo, a fim de que por meio de seu esvaziamento, encarnação e auto-sacrifício, o gênero humano possa humanamente viver em novidade e santidade de vida. (Fp 2). A beleza está na humanização do divino, e não na divinização do humano. Cristo se fez homem para que o homem se tornasse plenamente homem, vivendo a magnitude da humanidade desejada por Deus.

Creio que a cristologia é de fundamental importância para nossa práxis pastoral, porém, mas do que nunca devemos encontrar uma maneira de fazer com que os oprimidos, os párias e todos aqueles que têm sede da justiça divina, independente de gênero, etnia, ou classe social, possam se enxergar no Jesus humano. Amando como Ele amou, vivendo como Ele viveu, imitando-o, e usufruindo da obra Dele a qual inegavelmente operou como o Messias de Deus.

Sem medo de ser taxado de herege e sem o mínimo temor da fogueira da inquisição moderna mantida pelo fundamentalismo extremado, reservada para quem ousa pensar diferente, defendo que em nossa práxis pastoral metaforicamente tiremos Cristo Jesus do seu trono, o qual muitas vezes por forças de expressões e atitudes que negam o humano, Nele e principalmente em nós, o tem distanciado do nosso viver diário, das nossas dores, conflitos, crises e incertezas. Foi para nos fazer plenamente seres humanos, querendo conosco caminhar, que o Verbo de Deus se esvaziou, se doando até a morte de cruz.

Foi por saber que mesmo depois de termos o conhecido e aceitado como nosso Senhor e Salvador pessoal, por muitas vezes humanamente fraquejamos e caímos, que Ele depois de ter oferecido um sacrifício perfeito pela oferta de si mesmo, assentou-se à direita do Pai, a fim de interceder por nós. Digo tirá-lo do trono não no sentido de negar sua realeza e divindade, mas de trazê-lo mais para dentro de nossas vidas e realidades humanas. Devemos ver a Cristo Jesus não como um Rei distante de nós, devemos sim concebê-lo e anunciá-lo como o Cristo do caminho de Emaús, que no meio de nossas dúvidas e desânimo, caminha conosco, nos expondo as Escrituras, aquecendo nossos corações, e se dando a conhecer no partir do pão.

Se assim crermos e procedermos, poderemos dizer como Paulo, seu maior Apóstolo e intérprete: “Vivo, mas não sou mais eu, é Cristo que vive em mim. Pois a minha vida presente na carne, vivo-a pela fé no filho de Deus; que me amou e se entregou por mim.” (Gálatas 2.20). Concluo dizendo que minha compreensão cristológica é de que: Em Jesus de Nazaré, Deus se fez homem, e dessa condição não se desfez, e assim como se fez permanece, assentado a destra do Pai, intercedendo por aqueles a quem indissoluvelmente eternamente se fez igual.

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