Das profundezas

Publicado: 21/05/2008 em Poesia
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Pesadelo…

Ouve se os gritos, prantos, desespero,

Lágrimas, pela face de ébano a rolar.

O tumbeiro se afasta da costa, singrando o alto-mar.

Deixo para trás, clã, tradição,

em troca receberei açoites e humilhação.

Não escolhi partir, estou sendo seqüestrado.

Vejo ao meu lado minha mulher e filhos,

todos como eu também acorrentados.

No fétido ventre da morte, me bate um desespero,

a cada dia morre mais um irmão guerreiro.

Elevo ao Grande Espírito, em silêncio uma oração.

Pedindo a Ele a mercê de morrer com meus irmãos.

Porém, ao meu pedido o Criador disse não.

Depois de meses no mar, o tumbeiro um porto atingiu,

chegamos finalmente a um País por nome Brasil

Do ventre da morte, os sobreviventes são tirados.

Famílias separadas, destinos ignorados.

Rompem-se, com isso laços, sonhos, tradição.

Vendidos como peças, cada um foi para um lado,

trabalhos na cana, nas minas, no café,

nosso sangue e suor mantém este país em pé.

Castigo, humilhação constante, vivendo das sobras,

Contra tantas injustiça resolvo me rebelar,

prefiro morrer tentando ser livre,

do que passivamente aceitar.

Num anseio por liberdade, me embrenho na densa mata,

Porém, fraco, ferido e faminto, logo sou por cães acossado.

E noite de lua cheia, uma roda se forma então.

Não é de festa de cantiga, mas sim de punição.

Assim como vim ao mundo, ao tronco sou atado.

Com a diferença que nasci livre, e hoje estou escravizado.

A sentença ouço do patrão, que avisa a quem ousar tentar,

fugir sonhando ser livre, qual preço ira pagar.

Preso ao pelourinho, em meio ao banzo, e às tristes canções,

o chicote do feitor dilacera meu corpo. Deixando macerações.

A cada toque na pele, rouba-me o sangue, arrancando do meu peito um grito.

Porém, prenderam-me o corpo, mas livre está meu espírito.

Encontro-me na fronteira entre a vida e a morte.

Em meio ao delírio e dores lancinantes, contemplo entre meus antepassados,

Esposa e filhos, que no mar morrerãm primeiro,

ela, que no ventre dos filhos trazia o terceiro.

O do meio, e o mais velho, do meu trono na África herdeiro.

Porém, a insana escravidão veio seu destino mudar, pois,

no trono de meus ancestrais, jamais irá sentar.

Vitimas do ignominioso tráfico de vidas humanas,

destinados ao Brasil, escravos na cultura de café e cana.

Pereceram diante da violência, e cruenta humilhação.

no ventre do maldito e sombrio tumbeiro.

Que transportando gente rendia aos brancos muito dinheiro.

Perdi mulher e filhos, e também bravos guerreiros.

Pois, a dureza da travessia não puderam suportar.

Como lápide para seus corpos, serviram as profundezas do mar.

Porém, apesar da saudade ser grande, esse reencontro, decido adiar.

Pois, por mais que a vida seja dura, em nome dos vivos preciso lutar.

É que o sonho de ser livre acalenta minha alma,

por isso essa fronteira me recuso por hora atravessar.

Trinta e oito…

Trinta e nove… chega, grita o patrão.

Que isso sirva de alerta, pra todo negro fujão.

Deixe o passar a noite, preso ao relento,

que o frio da madrugada seja ungüento para seus ferimentos.

A noite de luar, me traz nostalgia e indagações

Açoites, humilhações, saudade do lar…

Criador, o que fiz eu? Porque tantas humilhações?

Da liberdade para o tumbeiro,

Do tumbeiro para a senzala,

Da senzala para o pelourinho,

Perdi pátria, dignidade e família.

Trabalho dia e noite, para um povo que só me humilha.

Por causa da cor da pele, sou como animal tratado.

Responda-me Senhor qual foi o meu pecado?

Dizem, que vim do continente maldito, e sem alma fui criado,

o cristão explica que sou, um infeliz descendente de cão,

criado para ser dominado, para se cumprir a maldição.

Outro branco letrado, amigo da sabedoria,

explica da mesma forma essa cruel vilania.

Sou de raça inferior, diz o sábio pensador,

E que tal ordem estabelecida, ninguém pode questionar,

pois, alguns nasceram dominados, e outros para dominar.

O batismo dos civilizados, me impuseram então, contudo

não consigo entender tal religião,

que permite que um homem tenha como propriedade seu irmão.

Pois mesmo sendo batizado, assim como meu sinhô, também é,

sacramento que nos fez irmãos, seguidores da mesma fé.

Oramos ao mesmo Deus, somos filhos do mesmo Pai.

Para ele ficou as bênçãos, para mim gemidos, dores e ais.

Mesmo sem saber orar, pergunto ao Deus do céu.

Que pecado cometi eu, para merecer destino tão amargo como fel.

Uma voz no meu interior, me diz, filho, o pecado não é teu não.

E sim daqueles, que deveriam em meu nome pregar o amor

Mas, se perdendo e em seus vãos raciocínios, semearam

segregação, intolerância e dor, e em nome do materialismo,

Trocaram a verdade pela mentira, da vida julgaram-se senhores.

Distorceram minha Palavra, e numa ignomínia tal

Escravizaram seus semelhantes, como se de mim tivessem aval.

Em nome do dinheiro e poder,

a seres humanos escravizam, matam e deixam à míngua morrer.

Baseados na clareza de sua pele, se declarando superiores, sábios e forte,

impondo aos que julgam inferiores, dores, humilhação e morte.

Porém, saiba que sou contigo, não te abandonei à própria sorte

O povo negro ainda se levantará como gigantes nessa nação.

Porém, não será sem luta, lágrimas e traição.

Por Mim mesmo juro Eu, que zelo pela justiça e o direito, para que se cumpra

Eu, de cuja boca não procede palavras infrutíferas e vazia

que toda injustiça praticada, desde quando da África, fostes arrancados.

Bem como o sangue de todo negro injustamente derramado nos canaviais,

minas, casas grandes, pelourinhos eitos e cafezais, somados ao pranto e gemidos de dor,

Arrancados pelo chicote do senhor e do feitor,

Subiram até minha presença, trazendo o mesmo clamor por justiça

de quando o sangue de Abel minha testemunha no inicio foi derramado.

Pr. José do Carmo (Zé do Egito)

comentários
  1. ANDERSON disse:

    OLHA SÓ QUE MANEIRO SEM ANISTIA SEM ESCOREGO
    LA VAI EU MAIS UM NEGRO NASCIDO NA CIDADE DE DUQUE DE CAXIAS NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO…

    PASTOR SUA POESIA FOI MUITO BEM ESCRITA AINDA MAIS CONTANDO UM POUCO DE NOSSA CULTURA QUE EU AMO TANTO CONTINUE SEMPRE ASSIM
    LUTANDO E ESCREVENDO PELO NOSSO POVO QUE É MUITO SOFRIDO E QUE EM MUITO EMBREVE TEREMO VITORIA EM NOME DE JESUS AMEM
    DEUS TE ABENÇOE

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