O vinte de novembro e essa tal liberdade

Publicado: 15/05/2008 em Artigos, Cronicas Cristãs
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Por: José do Carmo da Silva

Estamos nos aproximando de mais um vinte de novembro, e para muitas pessoas esta data não traz significado algum, e por isso “passará em branco”. Mas afinal por que se lembrar do vinte de novembro? O que ele tem de importante para o povo brasileiro? Neste ano, cujo ocaso se aproxima, no dia 13 de maio completou exatos cento e vinte anos de abolição da escravatura. Mas, o que tem a ver treze de maio com vinte de novembro? E o porquê tal data deve ser lembrada? Talvez, você que lê estás linhas esteja se perguntando.

A escravidão negra é um triste, criminoso, e pecaminoso capitulo da história do Brasil. E para muitos brasileiros, pelos adjetivos supracitados deveria ser tal capitulo apagado da história dessa nação. Alias não faltaram ações para se atingir tal intento. Se voltarmos ao passado nos dias que sucederam a assinatura da Lei Áurea, veremos que o povo negro, não tinha muita coisa para comemorar. Porque agora “livres”, após quase quatro séculos de trabalhos forçados, açoites, humilhações, e ter enriquecido a muitos, com seu sangue, suor e morte. Os raios da liberdade pareciam começar a brilhar no horizonte do negro brasileiro, trazendo consigo a igualdade. Porém, os senhores e o próprio Estado, trataram logo de trazer outros para ocuparem seu lugar no trabalho. Pois, agora o negro sendo livre, teria que receber por ele.

Mas por que não usar o próprio negro? É que os novos trabalhadores, além, de contribuírem com a força de seu trabalho, traziam uma contribuição a mais, possuíam traços europeus. Diferentemente dos negros, estes povo de tez clara, não eram vitimas de seqüestros, ou resultado de escambo na áfrica, atividades que reduziam pessoas humanas outrora livres, a mercadoria de compra e venda no Brasil. Não deixavam para trás forçadamente, pátria, pais, esposas, filhos, terras, religião. E o mais valioso e desejado disso tudo: liberdade. Estes novos cidadãos brasileiros iriam com sua presença suprir não só a falta de mãos de obra, mas também tinham a missão de embranquecer a nação. Quanto aos “libertos”, bem a idéia, era que abandonados à própria sorte, fossem extintos. Apagando-se, assim dos anais da história brasileira, junto com a ignominiosa memória da escravidão, a presença real dos antes escravizados, que de peça de grande valor, tornaram-se, indesejáveis, e dispensáveis nesse País.

Ao contrário do povo negro, para quem a vinda forçada para o Brasil era parte de um pesadelo, estes imigrantes, para cá mudaram espontaneamente, na busca do justo sonho de uma vida melhor. Hoje quando olhamos para os descendentes destes dois povos, constatamos as imensas diferenças sociais existentes na vida de ambos. A situação dos afro-brasileiros neste país é calamitosa. O Brasil é um país cuja pobreza possui cor, e ela é inegavelmente negra.

Tal situação teve inicio na libertação, onde, a elite brasileira, que se julgava culta, piedosa e estatalmente cristã, se dava ao luxo de possuir gente como propriedade. Tal nação impunha sobre o negro seu credo religioso, por meio do batismo, porém, não o tratava evangelicamente como seu igual. Assim procedia aplacando um possível peso na consciência, dizendo estar contribuindo no processo civilizatório dessas ainda bárbaras criaturas, proveniente do continente maldito, cuja negritude da pele denunciava ausência de alma. E diferentemente do que fez Zaqueu o publicano, que após, seu encontro com Cristo, livremente decidiu restituir até quatro vezes mais a quem tinha lesado. Tal nação cristã, agora rica graças, ao trabalho da estropiada etnia negra, dela se libertou, abandonando-a a própria sorte. Tendo o patrão ainda direito a indenização estatal.

O itinerário do negro brasileiro pode ser definido da seguinte maneira: da África, ao tumbeiro, do tumbeiro até o porto, do porto, para o comercio, do comercio sai vendido como propriedade, rumo à senzala, da senzala para o eito, do eito para o pelourinho. E cansado das surras e constantes humilhações, num sonho de liberdade, os que conseguiam fugir, saiam da escravidão para os quilombos.

Por aquilo que constato, observando meus pares negros, infelizmente sou obrigado a dizer que hodiernamente, a esse itinerário funesto, acrescentou-se, a falta de acesso ao ensino fundamental de qualidade, e condições de se manter na faculdade quando se consegue chegar – lá. Tais, fatores aliados ao racismo velado existente em todas as áreas da vida social, inclusive na Igreja, privam o negro brasileiro de ascenderem socialmente. Mantendo a grande maioria circunscrita à pobreza e indigência. Com presença majoritária nas favelas, FEBEM. Ocupando o topo das estatísticas do analfabetismo, população carcerária e de vitimas de chacinas. É devido a esses fatores negativos, e o sonho de ser livre por completo, que surge a razão, pela qual vinte de novembro, não pode passar em branco.

Contrariando a muitos, afirmo com muito orgulho, e de propósito que esse dia tem mesmo é que ser denegrido. Sim, tal data tem que literalmente, assim como o significado da palavra: denegrir, tornar-se negra. Essa data tornar-se-á negra, a partir do momento, que cada negro brasileiro, recuperar sua alto estima, e passar a valorizar seu passado, ícones e tradições, deixando de ser mero coadjuvante e passando a ser ator principal no palco de sua vida e história. Essa data precisa tornar-se tão negra assim como o é quarenta e sete por cento, dos componentes dessa nação, e que por ser essa enorme massa humana não pode mais viver as margens dela, quase que na invisibilidade. Questiono tal numero, pois, suspeito ser o percentual do povo negro brasileiro muito maior, e que tal fato não se confirma nas estatísticas devido à falta de um consciente e equilibrado orgulho negro, ou pelo medo de ser discriminado que levam muitos afros descendentes a negarem sua herança étnica. E diante do quesito cor se declarar; moreno, moreno claro, mulato, marrom bombom, moreno primeiro tom, ou seja, subterfúgios, usados por muitos para não se declararem realmente negros.

Vinte de novembro, para todo negro consciente, sobrepuja o treze de maio, pois, lhe traz a memória a luta, a resignação, o inconformismo, e o espírito guerreiro presente dentro de cada negro ou afro-brasileiro. Tal data nos recorda a morte de Zumbi dos Palmares, um homem que ousou sonhar com a liberdade para si e seus pares. E que por acreditar nesse sonho morreu lutando.

É preciso que hoje 118 anos depois, completemos o ato oficializado no dia treze de maio de 1888, quando a princesa Isabel assinou a Lei Áurea, pois a verdadeira liberdade, só existirá para o afro-brasileiro, se houver reparação do mal causado durante quase quatro séculos de escravidão. Urge destruirmos os frutos da omissão que se seguiu ao treze de maio, perdurando até os nossos dias. Omitiram-se a sociedade brasileira e seus governantes, que não buscaram meios de realmente inserir o povo negro no centro da vida do país, mas, manteve o a margem, aprofundando assim o fosso social por meio de um racismo velado, dissimulado pela propalada democracia racial. Hoje tal reparação será satisfatória somente se houver diálogo, confissão e perdão de pecados, orações e ações buscando a inclusão social, tanto dos negros como dos pobres em geral.

Porém, tal realidade será possível, somente através da articulação e participação de todos os brasileiros, independente de sua raiz étnica. Isto, afirmo por crer que todo sistema gerador de injustiças, pobreza e morte, só mudará, trazendo melhoria de vida, quando os indivíduos envolvidos na questão participarem como um todo. Cabe aos brancos reconhecerem, que racismo existe e tem causado muitos malefícios não só a indivíduos, mas a toda nação. E a nos negros, cabe o não esmorecer, diante das barreiras invisíveis que ainda nos cerca. E a exemplo de Zumbi dos Palmares, sonharmos e lutarmos por dias melhores. Movidos pelo amor de Nosso Senhor e Salvado Jesus Cristo, o qual declarou: Eu vim para que todos tenham vida, e que a tenha em plenitude, e essa promessa tem que se concretizar na vida de todos. Pois, para Deus não há: branco, negro ou amarelo, homem ou mulher, rico ou pobre, porém Ele por meio de Seu Filho se faz presente em todos.

Se assim procedermos, justiça e paz se abraçaram, e impelidos pela graça de Deus, negros e brancos num culto de gratidão, de mãos dadas, e jubilosos, a uma só voz cantaram, *Vassum Crisso, Vassum Crisso, pois eis que verdadeiramente já raiou a liberdade e a igualdade para todos no horizonte do Brasil.

*Louvado seja nosso senhor

Pr. José do Carmo da Silva (Zé do Egito)
Igreja Metodista em Fátima do Sul – MS

comentários
  1. Excelente texto Zé do Egito, a luta continua….segue nóticias de uma das nossas ações, o MANIFESTO dos 120 anos da abolição inacabada:

    Negros evangélicos querem ouvir pedido de perdão das igrejas históricas
    Ao completar, hoje, 120 anos da abolição da escravatura no Brasil, organizações do movimento negro afirmam, em documento encaminhado às igrejas históricas, que esse é um processo inacabado. As igrejas, diz o manifesto, devem pedir perdão ao povo negro por sua participação e cumplicidade na escravidão e silêncio diante do racismo.
    ALC
    São Paulo, terça-feira, 13 de maio de 2008

    “A população negra está na margem da riqueza produzida pela sociedade brasileira, situação reforçada pelas igrejas na cumplicidade e omissão perante a escravidão e anos de racismo no Brasil”, destaca o texto. Vai chegar o momento em que as igrejas históricas vão ter que, necessariamente, tratar desse tema. “É um processo, e o movimento negro vai exigir um pedido de desculpas”, disse à ALC o presidente da Sociedade Cultural Missões Quilombo, Hernani Francisco da Silva.
    O pedido de perdão deve vir acompanhado de ações afirmativas e reparações. No campo teológico, as organizações que assinam o documento propõem uma hermenêutica bíblica negra a partir da realidade do povo negro “e não como foi construída historicamente a partir de uma ideologia branca e masculina, que considera como único ponto de partida para a celebração os pressupostos ocidentais”, ignorando as expressões corporais, a mística e as tradições dos que vieram da África.
    Para a superação do racismo o movimento negro propõe um programa de ação das igrejas na promoção do diálogo inter-religioso, e o acesso dos afro-descendentes nos seminários e cursos teológicos, a criação e fortalecimento das pastorais e dos ministérios de combate ao racismo. Pede, ainda, uma maior participação de afro-descendentes nos cargos diretivos das igrejas, ampliando o número de pastores, pastoras, bispos e bispas.
    Não é a primeira vez que organizações do movimento negro vêm a público com a proposta de pedido de perdão dirigida às igrejas. Em 2006, a presidência da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) respondeu ao presidente da Sociedade Cultural Missões Quilombo, Hernani Francisco da Silva, que estaria disposta a avaliar, em conjunto com igrejas-irmãs, a possibilidade de uma declaração conjunta com pedido de perdão ao povo negro.
    Na mesma resposta, o pastor presidente Walter Altmann informou que a IECLB já se pronunciara sobre o assunto, através de dois textos: “Deus não é racista” e a declaração da IECLB alusiva aos 180 anos de suas primeiras comunidades.
    O documento das organizações negras deste ano foi enviado para as igrejas Anglicana, Presbiteriana do Brasil, Presbiteriana Unida, Presbiteriana Independente, Luterana, Evangélica de Confissão Luterana, Metodista e Batista. Assinam o documento oito organizações negras, entre elas as Alianças de Negros e Negras Evangélicas do Brasil e o Fórum de Lideranças Negras Evangélicas.
    Também receberam o documento o Conselho Mundial de Igrejas (CMI), o Conselho Latino-Americano de Igrejas (CLAI) e o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC).

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