As crônicas da cultura gospel: O Cristão, o Funk e “a água que entrou na arca”

Publicado: 13/05/2008 em Cronicas Cristãs
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Penso que nosso caráter, existência e maneira de agir são realidades construídas, por acontecimentos múltiplos, ocorridos no contato com diversas pessoas em meio às situações favoráveis ou adversas de nosso cotidiano. Nessa interação, com o outro/a vamos assimilando muito do agir e pensar dele/a. Assim sendo, penso que muitas de nossas atitudes, na realidade não são originalmente nossas, mas são reproduções, daquilo que outros foram, fizeram e falaram. A este conceito chamo de teoria, ou filosofia dos três F.

Aqui quero pegar o terceiro, desta minha ainda em construção filosofia dos três F: o falar. No ato de falar, emitimos palavras que muitas vezes possuem o poder de penetrarem, na alma de nossos ouvintes. Elas sejam boas ou ruins, verdadeiras ou falsas, possuem o poder de se aninharem no mais recôndito de quem as ouça. Palavras podem tanto libertar como aprisionar. Quem de nós pastores/as nunca ouviu de alguém algo assim: -“Pastor, aquelas palavras que fulano/a me disse, causaram e ainda causam dor em mim, o que ele/a disse, me faz sentir mais dor do que se ele/a tivesse me dado um murro!” Então com carinho, oração e dedicação pastoral, ouvimos a pessoa, choramos, por e com ela, irmanando – nos na dor e na tristeza. O Espírito Santo age operando naquelas lembranças dolorosas, promovendo a restauração daquela, vida, família, ou amizade. Então vem sobre nós a sensação de dever cumprido quando alguém nos fala: – Pastor, eu agradeço a Deus, por aquilo que o senhor me falou, pois sua palavra entrou no meu coração, e me fez entender que minha vida tem sentido, que eu tenho valor e que sempre é possível recomeçar, que independente do que falem de mim, ou contra mim, Deus me ama… Então, tentando evitar o “espírito de orgulho”, dizemos para a pessoa agradecida: – glorifique a Deus irmão/ã, foi Ele quem falou contigo, eu não sou nada, sou só o canal, Ele é a fonte, as palavras foram águas fluidas Dele, importa que Ele cresça e eu diminua. Mas, lá no fundo de nosso ser, naturalmente sentimo-nos felizes por termos sido “boca de Deus”, para abençoar alguém por meio de Palavras de vida. Muitas vezes, uma palavra ou uma frase dita, ou lida, poderá nos marcar por toda a vida. Há seis ou sete anos, fui convidado para pregar em uma comunidade metodista, pastoreada por um homem, pelo qual cultivo grande admiração, respeito e senso de gratidão. Cultivo por ele, tais sentimentos, pois percebeu em mim a vocação para o ministério pastoral. Aliás, percebe-se que por este pastor: carinho, respeito, admiração, são sentimentos nutridos por muitos dos que compõem o quadro clerical e laico do Distrito de MS, e da Quinta Região Eclesiástica. Naquele período, eu era evangelista na Igreja Metodista em Dourados, e pela primeira vez iria sair de minha comunidade de fé, para pregar em outra comunidade metodista. Lembro-me que ao receber o convite fiquei tenso, pois a responsabilidade era grande. Afinal eu havia sido convidado para pregar na Igreja Metodista Central em Nova Andradina – MS! Comunidade pastoreada pelo SD Reverendo Getro da Silva Camargo! Recebi o convite, com três semanas de antecedência da data marcada. Passei a orar buscando o Senhor na expectativa de trazer uma Palavra da parte e vontade Dele. Depois de escutar do alto, a fim de falar aqui em baixo, preparei o meu sermão com o tema “Santidade” baseado em Romanos 12. 1 e 2: “Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis o vosso corpo em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus”. O grande dia chegou, e após o culto noturno, conversávamos sobre a mensagem que pela graça entreguei a igreja, e parecia ter impactado a juventude. O Reverendo se lembrando de seu tempo de jovem, e como era a igreja naquela época, disse-me em tom de lamento esta frase, que ficou gravado em minha memória: “A água entrou na arca!” Hoje, diante de muitas coisas estranhas que vejo na Igreja, não só na Metodista, mas na Igreja Cristã Evangélica como um todo, volta sempre a minha mente tal frase: “A água entrou na arca!” A Igreja é chamada a influenciar o mundo, porém o que vemos em alguns casos é o oposto: a Igreja sendo influenciada pelo mundo. Advirto logo a quem ler este artigo, que não partilho das atitudes legalistas, “escapistas” e isolacionistas de muitos cristãos fundamentalistas, que consideram tudo fora da grei evangélica, como sendo demoníaco, e por isso pecado. Creio que existem muitas coisas no mundo das artes, sem o rotulo evangélico gospel, ou o imprimatur Católico Romano, as quais Deus na sua soberania, pode usar para louvor de sua glória. Creio que apesar de suas imperfeições, os não convertidos a Jesus Cristo, podem criar boas coisas na área das sete artes, a saber: na Música, na Dança, na Pintura, na Escultura, na Literatura, no Teatro e no Cinema, das quais nós cristãos podemos dispor sem prejuízo para nossa fé e testemunho ao mundo. Contudo, penso que existem coisas ocorrendo em setores da Igreja Cristã, que extrapolam os limites do bom senso, e mesmo da racionalidade, chegando às raias do ridículo e da falta de discernimento. Dentre as artes acima citadas, meu enfoque é a música, pois dentre as artes, ela é a que mais tem influenciado a Igreja, principalmente a Evangélica. Quando se pensa que se viu e se ouviu de tudo na mídia brasileira, logo se é surpreendido por mais uma novidade no campo da música, e que se torna o Top Hits do momento. Aliás, em matéria de música, no Brasil já faz um bom tempo que a coisa vai de mal a pior, isso tanto no secular como no meio gospel, sendo este ultimo seguimento influenciado pelo primeiro. Penso que tudo descambou mesmo, foi na década de 90, com as músicas do grupo “Mamonas assassinas”, cujos integrantes tragicamente morreram num acidente de avião na Serra da Cantareira, em São Paulo, quando voltavam de um show em março de 1996. No cenário da música nacional, muitos grupos de pagode como o: “Gera Samba” faziam um sucesso estrondoso, sempre com musicas, letras e danças de forte apelo sensual. Nos programas de televisão, ritmos dançados na “boca da garrafa” por mulheres seminuas, eram cantados na boca do povão. No embalo, velhos, jovens e até mesmo crianças, vestidas como as dançarinas do “Tchan” arriscavam um requebrado. No meio Evangélico, no calor do movimento batalha espiritual, enquanto muitos crentes oravam tentando segurar e amarrar o diabo, o Gera Samba, com toda força da mídia, fazia shows por todo o Brasil, mandando: segurar e amarrar o “Tchan”, com coreografias que liberava a libido sexual de muitos dos que assistiam ao vivo, ou pela telinha. Mas o tempo passou, e muitos se perguntam: cadê o Tchan? O Tchan passou, assim como tudo passa, e hoje, uma de sua mais conhecida dançarina: Carla Perez se declara evangélica. Contudo, o novo milênio chegou. E como um furacão, 2000, entrou ao som de um rugido vindo do “Bonde do Tigrão”. Funqueiros/as entraram em cena para mostrar que era chegada a hora e a vez do “batidão” no ritmo Funk. Com muita batida rítmica, letra pobre, e dançarinas seminuas, o Funk, explode, nas paradas de sucesso. O sucesso do Bonde do Tigrão é tanto, que ganha até um cover Gospel, por nome de “Bonde do Ungidão”, que inspiradíssimo cantava: “Quer mudar, quer mudar, Ungidão vai te ensinar, Eu vou passar óleo na mão Vou sim meu irmão Vou ungi você varão”… Enquanto a juventude não evangélica tentava preencher seu vazio existencial ao som de “Baba baby, baby, baba, baba” da cantora Kelly Key, no meio gospel ao som do batidão Funk, Kelly Krente, tenta igualmente preencher o vazio espiritual de muitos jovens evangélicos, e atrair outros não evangélicos. No meio secular ainda iria piorar, pois eis que nas pradarias, surge uma galopante “Lacraia” montada na sua “Égüinha pocotó”. Depois de muito pocotó, pocotó, a “Lacraia” montou em sua “egüinha” e partiram para o pasto do esquecimento. Já não se escutava o torturante “poçotó, pocotó, pocotó”, mas, sim um igualmente irritante: ‘”Piririn, Piririn, Piririn, alguém ligou pra mim”. O som do “Piririm, Piririm, Piririm” era só para anunciar que “tapinha não dói”. Mas, segundo, noticias veiculadas no Jornal eletrônico: Ultimo Segundo no dia 20/03, o Hit doeu nos ouvidos, mexendo com o brio de algumas mulheres, da ONG Themis, que se sentindo ofendidas, entraram com uma ação na justiça, e obtiveram ganho de causa contra a música “Tapinha não dói”. A atitude da ONG doeu no bolso da empresa Furacão 2000 Produções Artísticas, que promete recorrer da decisão judicial, para não ter que desembolsar 500 mil reais. Agora diante do hit do momento, tais mulheres terão que lutar também, para provar que mulher e só mulher, e não mulher jaca, tampouco mulher melancia. Talvez você esteja se perguntando o que isso tem a ver com a Igreja? Respondo-lhe, não teria nada, se a igreja, ou seguimentos dela, não estivessem sendo influenciado por tais situações do meio secular. Um dia destes fiquei surpreso, ao passar por um grupo de Jovens que ouviam música em um aparelho de som portátil. Notei que as meninas estavam dançando, e pela batida da música e o jeito que elas dançavam, percebi que era Funk. Até ai nenhuma novidade, pois o Funk atualmente lidera as paradas de sucesso, tendo saído das favelas e penetrado nas boates da classe média. E, o Top Hit do momento do batidão Funk, é a “Dança do Créu”. Aliás, parecia ser a dança do Creu que os jovens ouviam, mas, ao prestar atenção na letra da música, vi que não era o insólito “Créu”, mas algo ainda pior! Uma versão Gospel intitulada: “Dança do Céu”, e os ouvintes e dançarinos eram jovens Evangélicos! Refeito do susto fui para casa, e resolvi procurar na Internet algo sobre o assunto. Não demorou muito, me deparei com um vídeo da música na versão gospel, a qual vem fazendo grande sucesso em alguns encontros evangélicos, tendo sido um dos vídeos mais acessados do You-Tube. A conclusão que cheguei, é que muitos no meio gospel brasileiro, estão aumentando o furo por onde a “água tem entrado na igreja”, pois cada vez mais, já não se escreve músicas, por meio da inspiração do Alto, com base em uma reflexão teológica, fruto de uma vida de reverencia com e diante de Deus, e com intenção de louvá-lo. Pelo contrário, muitas são escritas as pressas, parodiando os Hits do momento, da música secular, com intenção de obter lucro explorando o filão composto por trinta milhões ou mais de evangélicos. Alguém pode argumentar, mas e Hino Castelo Forte, de Lutero que foi baseado em uma música secular de seu tempo? Bom o ritmo pode até ter sido, mas penso que Castelo Forte se aproxima mais do salmo 46, e que naquela época, como até décadas atrás, mesmo no meio secular existia boas músicas, as quais infelizmente hoje estão cada vez mais raras. Diante da “Dança do Céu”, versão gospel da insípida “Dança do Créu”, parafraseando a frase que ouvi de meu querido pastor Getro da Silva Camargo, digo que: não é a “água que entrou na arca” (igreja), mas sim o “fogo entrou na arca”, não fogo do Espírito Santo, mas sim fogo estranho! E somente por meio de aquela água prometida por Jesus em Jo 7.38 poderá ser apagado. Que Deus nos guarde, até que passe este vento, trazido por uma banda podre da onda Gospel, e que nos livre de ver uma coreografia da dança do Céu na Igreja.

Pr. José do Carmo da Silva. Igreja Metodista em Fátima do Sul – MS. przedoegito@gmail.com

comentários
  1. Raiane disse:

    bem eu acho q o fun ainda é bem discriminado
    eu acho q td ” é licito mais nao podemos nos deixar ser domiinados por isso ”
    o funk é simplismente
    uma forma de chamar atençao dos jovens e traze-los pra igreja
    mais muuitas pessoas nao intendem e nao renovam a mente para o novo Romanos 12
    ficam limitadas para o novo de deus

    e deus começa a nos limitar a chuva de bençao
    talvez esses funkeiros estejam fazendo o meu o seu e o nosso trab de evangelisaçao …

    bjus …

  2. przedoegito disse:

    A Paz Raiane, o problema não é o Funk, não creio que exista ritmos sagrados ou profanos. O problema é que no caso dos Funks gospel, dança do céu e o bonde do ungidão, os individuos fizeram paródias em cima de uma músicas do mundo com fortes apelos sensuais. Não condeno o funk, embora entre as músicas de periferia prefiro mais o RAP gospel do que Funk, como disse acima os ritmos ou a batidas são elementos neutros não sendo nem profanos nem divinos. Agora querida Raiane, tente pensar na dança Funk, isenta do fator “sensualidade”. Respeito sua opinião, e em parte concordo coom ela no tocante ao brir-se ao novo de Deus, mas é o novo de Deus, fruto do Espírito que influência o mundo, e não o que está fazendo sucesso no mundo que influencia o povo de Deus. Mas penso que o garoto que compos a dança do céu, simplesmente pegou a letra da dança do créu e mudou, isso não tem nada de inspiração divina ou renovação da mente por parte do Espírito Santo, antes a meu ver parece a falta de ambas as coisas.Leia o post “eu por mim mesmo”, e verá que é um RAP escrito por mim, e que pode muuito bem com as batidas certas tornar-se um Funk. Embora respeitando quem goste, reafirmo eu não curto Funk.Aproveite para ler “jesuslogia” eu tenho uma para viver, uma mensagem em cima da música “ideologia” de Cazuza.
    Beijos, e volte sempre a ler e comentar os post.

  3. Ola pessoal sou Kiko levy eis cantor da gravadora Gema eis compositor da banda Calcinha preta , Limão com mel , Mastruz com leite e também fui dono da banda de forró Levanta poeira.
    Quando alcancei meu maior sonho
    que foi conquistar um lugar no cenário musical pensei que finalmente minha vida passaria a ter um sentido , pois eu era assediado ,aplaudido ,amado até por pessoas que eu não conhecia
    Bem , no começo tudo foi bom ,mais com o tempo aquilo pelo que eu tinha lutado por tanto tempo se transformou em uma rotina interminável de noites perdidas de cansaço
    De ilusão e decepção
    Eu não era feliz , a fama não me troce paz , e o que eu buscava verdadeiramente era a paz .
    Hoje estou caminhando com cristo ,sou apenas um aprendiz ,mais não troco a vida que levo hoje nem por toda gloria do mundo.
    Hoje faço parte do ministério hadassa de louvor
    Na minha pagina tem algumas musicas que o senhor me deu
    Entrem e conheçam.
    Peso que orem por esse ministério que realmente foi um sonho de Deus na minha vida.
    http://hadassa.ning.com/

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